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A Mostra Aurora em São Paulo

Luiz Carlos Merten

17 Março 2018 | 00h37

Numa declaração para a matéria de abertura da Mostra Aurora SP, no CineSesc, Raquel Hallak, da Universo Produção, destacou, como um dos objetivos do evento, o debate sobre a representatividade de gêneros. Eu já tomei porrada num debate realizado lá, posso tomar de novo. Não tenho problema nenhum com a tal representatividade e vou defender, sempre, que homens, mulheres, brancos, negros, índios, trans, tenham condições – recursos e liberdade – para se expressar na tela, ou em qualquer outra mídia. Mulheres falando de mulheres, índios, de índios, gays, de gays, trans, de trans. Só que, particularmente, neste ano, não creio que tenha sido uma grande Aurora, do ponto de vista da seleção. Até quero rever alguns filmes, o próprio premiado – Baixo Centro -, para reavaliar e formar um juízo mais sólido, mas a verdade é que meus preferidos deste ano foram filmes trans, meio marginais dentro da própria Aurora. Não defendo que seja assim, mas em 2018 foi. Um filme de homem sobre mulher – Rebento, de André Morais, com a extraordinária Ingrid Trigueiro, que recomendo que vejam. Outro, de mulher sobre homem, Navios de Terra, de Simone Cortezão, com Rômulo Braga. Compreendo que isso possa causar estranhamento, mas não posso parar de pensar que, em Gramado, no ano passado, Luiz Bolognesi defendeu o roteiro de Como Nossos Pais, dizendo que sua ex, a diretora Laís Bodanzky, é também grande roteirista. Segundo ele, a edição final do roteiro do filme é dela – será por isso que todos os homens de Como Nossos Pais são uns merdas? Eu gostaria que o filme, muito bem realizado e interpretado, fosse também mais nuançado na abordagem das relações de gêneros. Já se passaram mais de 50 anos, mas, assim como homens – Joseph L. Mankiewicz, Ingmar Bergman, Kenji Mizoguchi, Pedro Almodóvar, etc – fizeram grandes filmes sobre mulheres, uma mulher investigou melhor que ninguém, para mim, o desejo do homem. Estou falando de Agnès Varda e do seu Le Bonheur/As Duas Faces da Felicidade. O sonho de Jean-Claude Drouot é ter duas mulheres, e Varda torna transparente sua euforia com elas, mas a organização social e a moral pequeno-burguesa impedem que isso ocorra. O olhar trans(gênero), às vezes, é decisivo para a revelação de certas verdades.