Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A morte em pleno trabalho

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

A morte em pleno trabalho

Luiz Carlos Merten

20 Abril 2011 | 15h54

Das frentes de combate na Líbia chega a informação de que morreu Tim Hetherington. Tim quem? Hetherington é o co-diretor (com Sebastian Junger) de ‘Restrepo’, que ganhou o Oscar. Depois de acompanhar o pelotão norte-americano no vale Korangal, reduto dos talibãs, no Afeganistão, Hetherington, fotógrafo de guerra, foi documentar as imagens da resistência ao regime de Muamar Khadafi. Foi atingido por um morteiro. Confesso que a notícia me perturba. Ao escrever sobre ‘Restrepo’, na estreia do filme, aproveitei – já que não consegui entrevistar os diretores – uma declaração deles no material de imprensa. Uma carta de intenções  – “A guerra no Afeganistão se tornou altamente politizada, mas os soldados raramente participam desse debate.  Nossa intenção era captar a experiência do combate, do tédio e do medo através dos olhos dos próprios soldados.  Suas vidas foram nossas vidas.  Nós não sentamos com as famílias deles, não entrevistamos os afegãos, não exploramos os debates geopolíticos.  Os soldados estão vivendo, lutando e morrendo em postos remotos e em condições que poucos americanos que ficaram nos EUA podem imaginar.  Suas experiências são importantes para entender, independentemente, de crenças políticas.  As crenças, no fundo, podem ser uma forma de evitar que a gente encare a realidade.  E o que nos interessava era a realidade. ”

Achei muito bonito, muito forte este texto. Acho que o filme foi realmente concebido e executado dentro desse objetivo. Foi um Oscar estranho, o deste ano. Não poderia dizer que ‘O Discurso do Rei’ é uma vergonha, mas com certeza torcia por outros filmes, na categoria principal. ‘A Rede Social’, de David Fincher, ‘O Vencedor’, de David O. Russell. Na categoria de documentários, em que venceu ‘Tralho Interno’, de Charles Ferguson, torcia por Banksy (‘Exit Through the Gift Shop’) pelo simples fato de que ainda não havia assistido a ‘Restrepo’. Existe uma tradição da fotografia de guerra que Robert Capa talvez encarne melhor do que ninguém. Sempre gostei de uma definição que li, em algum lugar – o fotógrafo de guerra tenta sempre driblar a morte para conseguir captá-la em pleno trabalho. Foi o que Capa fez na sua obra-prima, na Guerra Civil espanhola, a foto da morte do soldado legalista. Foi o que Hetherington e Junger fizeram no Afeganistão, era o que de novo Hetherington estava fazendo na Líbia.