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Cultura » A morte? Ele é contra

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Luiz Carlos Merten

15 Maio 2010 | 13h59

CANNES – Na sequência do novo Mike Leigh, que me lembrou ‘Hannah e Suas Irmãs’, veio o próprio Woody Allen, com seu novo filme, ‘You Will Meet a Tall Daerk Stranger’. É o reverso de ‘Tudo Pode Dar Certo’. Aqui, nada dá certo e a única possibiliodade de ser feliz está no casal que acredita em vidas passadas. Juro que o filme me deprimiu, mas a entrevista, realizada a seguir, foi a melhor até agora. Perguntaram se Allen estava mais pessimista e ele respondeu que não mais do que sempre. O filme é sobre essa inglesa casada há 40 anos que é abandonada pelo marido e busca consolo numa vidente. As demais pessoas compõem uma ciranda de amores infelizes. O marido que sonha ser jovem – e toma viagra para aguentar o tranco da amante jovem, que por sinal era prostituta -, a filha casada com um aspirante a escritor, ninguém é feliz, mas as degraças, eventualmente, conseguem ser divertidas.  Allen quase me convenceu que estava mudando,. Depois da ‘ressurreição’ de Mike Leigh, achei que ia assistir à ressurreição dele. O filme começa meio mal, melhora muito e depois afunda. Nada de novo no universo de Mr. Allen. Mas, como eu disse, seus personagens têm aqui uma franqueza na exposaição da própria miséria que eu acheri lá pelas tantas que ia assistir a uma inversão. Como Mike Leigh se apropriou de Woody Allen, o próprio Allen ia fazer, quem sabe, o seu ‘Segredos e Mentiras’. Já disse que a coletiva foi ótima. Viou dar o crédito a Tiago Stivaletti, do Brasil, que citou Manoel de Oliveira, obcecado pela morte, e perguntou como Allen se sentia em relação ao assunto. Allen disse que é contra a morte, o que provocou muitas risadas, mas disse que não se importaria de chegar a 102 anos – tem 74 -, se mantivesse a rigidez de Oliveira. Duvido. Ele próprio faz piada da sua dificuldade para se lembrar das coisas, mas disse que seu pai e mãer foram longevos e, portanto, quem sabe ele não vai longe? Vida longa a Mr. Allen, mas ele, como meu ex-editor Evaldfo Mocarzel, faria melhor para seu cinema – e o cinema em geral – se não se sentisse obrigado a produzir um filme por ano, todos os anos. Um pouco mais de elaboração, um pouco menos de repetição, ajudariam, Woody Allen a se reinventar. Mas, ah, sim, seus atores são ótimos. Anthony Hopkins, Antonio Banderas e Josh Brolin e as mulheres, Naomi Watts, Lucy Punch e Gemma Jones. Lucy é a grande surpresa como a prostituta que tem uma recaída e começa a sair com seu instrutor de ginástica. Não a conhecia, mas não vou ficar nem um pouco surpreso se for indicada para o próximo Oscar de coadjuvante e até vencer o prêmio, como outras atrizes de Allen.

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