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Luiz Carlos Merten

10 Março 2008 | 15h46

Fui ver ontem ‘A Morte de George W. Bush’. Sessão das 21h30 no Unibanco Arteplex, havia uma meia-dúzia de gatos pingados para ver o ‘mockmentary’ de Gabriel Range. Meu colega João Luiz Sampaio, que viu ‘A Morte” no mesmo cinema, na sessão anterior, diz que nunca viu uma sala do Arteplex tão deserta. Devia estar todo mundo vendo ‘Amor, Sublime Amor’ no Alpha. Devo admitir que não gostei do falso documentário – ou melhor, da ficção – de Range. Gostei da direção de atores, aquela gente toda agindo como se estivesse num documentário de verdade. Mas o filme, propriamente dito, não. Acho, de qualquer maneira, interessante analisar o que me parece uma tendência. ‘A Morte de George W. Bush’ inscreve-se na vertenta aberta por ‘A Bruxa de Blair’ e que, recentemente, produziu dois filmes tão díspares quanto ‘Redacted’, de Brian De Palma, e ‘Cloverfield’, de Matt Reeves. O que todos esses filmes têm em comum é o fato de discutirem a cultura da imagem. Vivemos numa sociedade – numa era – em que a imagem reina soberana, como representação da verdade (e da beleza, mas esta é outra história). Uma imagem, por princípio, não mente – ou não deveria mentir, mas Woody Allen (‘Zelig’) e Robert Zemeckis (‘Forrest Gump’) já nos ensinaram a desconfiar das imagens, porque na era da digitalização elas podem ser manipuladas, distorcidas, falseadas. Não consegui levar a sério o fake assumido de ‘A Morte de George W. Bush’. A verdadeira discussão ali dentro não me parece ser sobre a paranóia, a discriminação, o antidemocratismo do presidente mais manipulador (e mal-amado) da história americana recente. E o assassinato de um político não precisa, ou melhor, não deve ser a tiros, mas nas urnas. Isto posto, o filme de Range é sobre a imagem, o que ela diz (e não diz), sobre as mentiras que pode patrocinar. Isto me parece tão importante, tão necessário, que eu até gostaria de ter gostado incondicionalmente do filme de Gabriel Range, mas não deu. E, ah, sim, o filme é de 2006, narra um fato supostamente passado no futuro, em 2007, mas passa aqui quando já é irremediavelmente passado. Será que isso, o fake desmontado, ajuda a explicar o desinteresse do público pela morte fictícia de George W. Bush?