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Cultura » A moral é uma questão de travelling

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Luiz Carlos Merten

06 Janeiro 2010 | 09h07

Sorry, mas vai ser um daqueles posts corridos, quilométricos, que tantos de vocês me reprovam. Estava ontem à noite em casa, redigindo o post sobre a trilha de ‘Lula, o Filho do Brasil’. Na minha frente, estava o volume ‘Nouvelle Vague’, editado pela Cinemateca Portuguesa para assinalar os 40 anos do movimento, em 1999. Pergunto-me, de novo, se a Cinemateca de Portugal terá atualizado aquele lançamento ou editado outro livro comemorativo dos 50 anos, em 2009? Mas, enfim, não é disso, exatamente, que quero falar. Folheei o livro e encontrei um texto que não conhecia de Antoine de Baecque, originalmente escrito para ‘Trafic’, em duas partes, em 1998. Você deve se lembrar da célebre definição de Godard (era dele, não?) – ‘O travelling é uma questão de moral.’ Baecque inverte a equação – ‘A moral é uma questão de travelling’ – para falar de Sam Fuller e de como ele, sozinho, provocou um cataclismo na crítica francesa, em meados dos anos 1950. Hoje em dia, pouquíssima gente ainda fala sobre Fuller e seu cinema ‘demencial’, aqueles westerns, filmes de guerra e policiais que tanta sensação fizeram há 50 anos. Os jovens turcos dos ‘Cahiers’ viam nele o autor por excelência. Fuller escrevia seus roteiros e, mesmo quando vinculado a um estúdio – à Fox, contratado que foi pelo próprio Darryl Zanuck –, nunca deixou de ser independente. Considerando-se a altivez de Fuller e a virulência de sua crítica à sociedade norte-americana, é surpreendente que ele tenha atravessado incólume os anos do macarthismo. Mas, se é verdade que Fuller tinha amizades à esquerda, seu anticomunismo visceral desautorizaria qualquer tentativa de MacCarthy e seus asseclas da Comissão de Atividades Anti-Americanas do Senado para torná-lo suspeito. Fuller já havia feito filmes como ‘Eu Matei Jesse James’, ‘O Barão Aventureiro’, ‘Capacete de Aço’, ‘Baionetas Caladas’ e ‘A Dama de Preto’, mas foi em 1953 que ele virou um caso, quando ‘Anjo do Mal’ (Pick-Up on South Street) representou os EUA no Festival de Veneza. Luchino Visconti presidia o júri, que era integrado pelo crítico e historiador francês George Sadoul. Ambos não eram apenas intelectuais de esquerda. Eram comunistas de carteirinha e se opuseram veemente a que Fuller fosse premiado, mas no final, face ao clamor do restante do júri, tiveram de outorgar-lhe um prêmio especial do júri (dividido, entre outros, com ‘Sinhá Moça’, de Tom Payne, do Brasil). A partir daí, Fuller provocou uma cisão na crítica francesa. Sadoul e o próprio André Bazin lhe eram contrários, os ‘jovens turcos’ (os radicais)e seu arauto François Truffaut o defendiam com paixão. Truffaut só não arremeteu contra Sadoul porque era importante, para ‘Cahiers’, contá-lo entre seus colaboradores como ‘historiador’. Além do prestígio pessoal, Sadoul mantinha a revista na paz com a Federação de Críticos da França, controlada pelos stalinistas. Eles (os stalinistas) tinham de aguentar quando Fuller dizia que o comunismo, e o stalinismo, era uma forma de religião e a religião era o ópio do povo russo, submetido ao que ele chamava de ‘hipnose’ (não lavagem cerebral). Em seus filmes, Fuller mostrava que havia uma linha muito tênue separando gângsteres e policiais e, em geral, era só a insígnia. Mesmo assim, a moral era clara em ‘Anjo do Mal’ – era preferível ser p… (a palavra de quatro letras) a ser comunista. Tal era a polaridade, contra e a favor de Fuller, que Antoine de Baecque redefine a moral como uma questão de travelling. Ou seja, o que ele quer é desautorizar a crítica ideológica, seja à esquerda ou à direita. Fuller é cinematográfico, e como tal deve ser analisado. Tenho lá os meus favoritos entre os filmes de Fuller. Adorava ‘Tormenta sob os Mares’, mas faz décadas que não vejo o filme e não sei mais como terá resistido. Gosto de ‘A Lei dos Marginais’, de ‘Mortos Que Caminham’ e ‘ Paixões Que Alucinam’, mas o ‘meu’ Fuller é ‘Beijo Amargo’ (The Naked Kiss), que ele fez em 1964, com Constance Towers como a prostituta que arranja um marido rico, adquire respeitabilidade, mas ela parte para o pau quando descobre que ele abusa de crianças. Fuller subverte o melodrama pela violência e pela brutalidade. E a atriz fazia toda diferença. Ele já havia dirigido Constance Towers em ‘Shock Corridor’ (Paixões Que Alucinam) e essa atriz, além da dose dupla com Fuller, fez também dois filmes consecutivos de John Ford – ‘Marcha de Heróis’ e ‘Audazes e Malditos’, em 1959 e 60. Eu amava Constance, que tinha a dureza de uma Barbara Stanwyck mais jovem. Comecei falando de Fuller e acabo com ela. É sempre assim. Os posts são viagens para mim.