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Luiz Carlos Merten

10 Maio 2007 | 22h48

Para me animar um pouco do desconsolo que me causou a descoberta do erro sobre o currículo do Santaolalla, sempre posso usar o pedido do Carlos Pereira e falar um pouco sobre A Moça com a Valise, do Zurlini. Em primeiro lugar, quero dizer (ou repetir…) que Zurlini foi um amor de adolescência, que descobri quando ainda era muito jovem e acho que experimentava muitas das perturbações que acometiam seus personagens. Zurlini não foi uma descoberta isolada. Nos primeiros anos da década de 60, a presença italiana no mercado brasileiro era muito forte. Assistíamos aos filmes dos grandes diretores (Visconti, Fellini, Antonioni, Rossellini), mas também às comédias de Monicelli e Risi e aos filmes de outros autores menores, como Florestano Vancini. Achei muito bonito quando vi La Lunga Notte del 43, que se chamou (se não me engano) A Noite do Massacre e, depois, já por volta de 1965, Le Stagione del Nostro Amore (Enquanto Durou o Nosso Amor), com Gabriele Ferzetti vivendo uma espécie de Ulisses moderno, amargurado pela impossibilidade de voltar no tempo, o que percebe, em definitivo, na cena do encontro com a garota na praia, que é a sua Nausicaa. Vancini filmava a política e os sentimentos. Onde anda ele? Enfim, me desvio do meu assunto, que é Zurlini. Sempre me encantou muito em Zurlini a intersecção do público e do privado. Zurlini contava a história da Itália por meio das aventuras, que eram sempre desventuras, sentimentais de seus personagens. O próprio Zurlini definiu certa vez, penso que para Jean Gili, La Ragazza con la Valiglia como o seu olhar sobre o microcosmo do afeto, do amor e dos sentimentos. Para mim, sempre foi e acho que ainda é – faz tempo que não revejo o filme – uma história muito triste sobre dois perdidos num mundo sujo, um adolescente tímido e essa garota que chega com a mala e já tem um filho (sem pai). Os dois se sentem atraídos, mas é uma ligação impossível. No final, por causa dela, o garoto apanha de um playboy (ao som de uma canção popular na época, Tintarella di Luna). A partir daí, não existe volta e Zurlini sela o pessimismo que ronda sua obra. O adolescente ferido nos sentimentos vai seguir a via solitária de seus heróis e ela também não conseguirá escapar à prostituição, a que a condena sua situação. A Moça com a Valise é de 1961, com Claudia Cardinale e Jacques Perrin (com quem Zurlini faria Dois Destinos, no ano seguinte). Deve ter passado no Brasil um ou dois anos depois. Esse trágico desencontro dos personagens de Zurlini me remetia a Visconti, a Rocco, onde Alain Delon também tenta resgatar Annie Girardot (Nadia) da prostituição, mas a intervenção do irmão, Simone (Renato Salvatore), a lança num caminho sem volta. Visconti transcende, pelo social, a análise dos sentimentos de Zurlini, mas sempre me encantou a delicadeza deste filme, a beleza da fotografia (em preto-e-branco), acho que de Tino Santoni, e a música, tenho certeza, de Mario Nascimbene. Vou parar um pouco e procurar um livro que tenho sobre Zurlini. Estou postando de casa, o que é raro. O livro me interessa porque, na contracapa, há uma frase dele que acho genial e eu quero compartilhá-la com vocês.