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A Melhor Escolha, ou a importância de ver Richard Linklater

Luiz Carlos Merten

25 Março 2018 | 07h45

Gosto muito do cinema de Richard Linklater, de sua trilogia ‘Antes’ (do Amanhecer, do Pôr do Sol, da Meia-noite) como de Boyhood – Da Infância a Juventude e de Jovens, Loucos e Rebeldes. Cineasta do movimento, que filma o tempo e cultiva o diálogo, Linklater dirige com frequência sua câmera para os verdes anos e o período de amadurecimento. Algo diferente ocorre agora com A Melhor Escolha. Linklater apanha um trio de coroas que fizeram a Guerra do Vietnã e se reúnem para enterrar o filho de um deles, morto no Iraque. É um filme sobre perdas, superação, amizade. Pega carona no velho A Última Missão/The Last Detail, de Hal Ashby, em que Jack Nicholson está fantástico. Três integrantes da polícia da Marinha escoltam um garoto para a prisão, mas, como ele ainda é virgem, resolvem lhe proporcionar, a título de despedida, a primeira noite de um homem. Foi o que ocorreu, há muito tempo, com Bryan Cranston, Laurence Fishburne e Steve Carrell, só que, lá atrás, o que seria uma noite de diversão virou tragédia, a marcar o trio para sempre. Casualties of war. As perdas, cicatrizes, da guerra. Carrell, que perdeu a mulher e o filho, descobre que a morte do seu menino não foi heróica, no campo de combate, e por isso acha que não deve enterrá-lo em Arlington, com os heróis da pátria. Compra uma guerra privada com o Exército, e o militar que representa a instituição. Num determinado momento, o trio resolve ir à mãe do soldado que morreu no passado, para lhe contar ‘a verdade’ sobre a mnorte do filho. Mas diante da velha Cicely Tyson e do que representa para ela reencontrar os homens pelos quais seu filho sacrificou a vida – a versão oficial – o ímpeto desmistificador cai por terra. Hal Ashby, mas também, e principalmente, John Ford. Edmond O’Brien em O Homem Que Matou o Facínora – quando a lenda se superpõe aos fatos, publica-se a lenda. É o que o próprio Carrell fará aqui. Mais até que sobre amizade, é um filme sobre a camaradagem masculina, com ecos de um milhão de westerns e filmes de guerra. Quem fomos, somos. O que nos tornamos. Larry Fishburne virou pastor, Cranston, chegando à meia-idade, permanece à deriva na vida. E Carrell precisa perder tudo – perdeu até a juventude, preso que foi num episódio nunca completamente esclarecido entre eles – para reencontrar o filho. Veja como. Gostei muito de ter visto Last Flag Flying, que traduzido, litertalmente, seria A Última Bandeira Desfraldada (ou Tremulando), mas virou A Melhor Escolha. Dib Carneiro, que viu o filme comigo, achou que daria uma excelente peça. Todas aquelas conversas – sobre Deus, rap. A Melhor Escolha baseia-se num original de Darryl Ponicsan, que escrevera The Last Detail. Não tinha lido nada, não sabia nada do filme que ia ver. Não reconheci Cicely Tyson como a Sra. Hightower e, ao descobrir o crédito, sinto, velho tolo, que me devo rever o filme de Richard Linklater. Cicely quem? Como Ruby Dee, grande atriz negra que faz parte do meu imaginário desde que, muito jovem, a vi em O Sol Tornará a Brilhar, Cicely coprotagonizou, com Paul Winfield, Sounder/Lágrimas de Esperança, o clássico de Martin Ritt, de 1972. Ritt fez diversos filmes sobre, e contra, o racismo, mas esse talvez seja o maior. A história de uma família em Louisiana, nos anos 1930, durante a grande depressão. O pai (Winfield) é preso por um crime que não cometeu. A mãe (Cicely) dá duro para manter a família unida e envia o filho numa viagem iniciática para visitar o pai na cadeia. On the road. Há uma cena linda em Lágrimas de Esperança. A família de negros chega a uma igreja, mas está fechada para eles. A exclusão religiosa – a igreja dos brancos – metaforiza a exclusão social. Quem me acompanha no blog já me ouviu falar desse grande filme. Sounder é o cachorro, e a história é contada pelo seu olhar. Sounder é a Baleia do cinema de Hollywood e o tema do filme de Martin Ritt é o contrário da exclusão. A inclusão. Um branco generoso, que já sentira a exclusão durante o macarthismo, filma os negros. O cinema trans-gênero. Trans, ou poli, racial. Vi A Melhor Escolha ontem à tarde. À noite, fomos comemorar o aniversário de Orlando Margarido no restaurante da Portuguesa, com fado. Só nós dois é que sabemos… Um grupo pequeno, mas simpático, divertido. O filme e suas ramificações ainda estão se desdobrando no meu imaginário.