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A magica dos Taviani

Luiz Carlos Merten

11 Fevereiro 2012 | 14h44

BERLIM – Estah sendo um dia de belas emocoes na Berlinale. Assisti pela manhh ao novo filme dos Irmaos Taviani, Cesare Deve Morire, sem fazer a menor ideia do que me esperava. O filme acompanha grupo de detentos de uma prisaoh de seguranca maxima em Roma. Integram um coletivo de teatro. Representam Shakespeare, Julio Cesar. Na coletiva, Paolo, ou Vittorio, disse o por queh da escolha da peca. No texto de Shakespeare, Marco Antonio fica repetindo que Brutus matou e Brutus eh um homem de bem. Eh o que integrantes da Mafia e da Camorra vivem dizendo. Saoh homens de bem. Per ene. Os Taviani trabalharam muito com os detentos, mas o filme naoh eh um documentario. Eh cinema documentado, mas ficcaoh pura. Os conflitos entre detentos explodem com a representacaoh. No final, um dos detentos, o que faz Cassio, entra na cela e diz a frase que resume o sentido do filme – depois que descobriu a arte, aquela cela lhe parece, realmente, uma prisaoh. Havia tido uma amigavel discussaoh com meus companheiros espanhois. Eles naoh gostaram de Cavalo de Guerra por causa da necessidade de Steven Spielberg de fornecer um happy end, afirmando sua crenca na humanidade. Os Taviani tambem acreditam. Na forca transformadora da arte. Eh o melhor filme deste comeco de festival, e espero que fique ateh o fim nas consideracoes do juri presidido por Mike Leigh. Hah outro filme aqui sobre prisoes, mas naoh concorre ao Urso de Ouro. Eh o documentario Corredor da Morte, de Werner Herzog. Ele entrevista cinco ou seis condenados que esperam pela execucaoh da sentenca. Como cinema, naoh eh taoh bom quanto A Caverna dos Sonhos, mas eh Herzog. Ele entrevista os caras – naoh eh muito bom entrevistador -, retira algumas confissoes intimas, mas de repente muda o rumo da conversa e introduz banalidades ou exoterismos. Acabo de assistir a um trecho da coletiva de Angeliona Jolie na TV. Havia gente pelo ladraoh para falar com a diretora de In the Land of Blood and Honey. Ela contou como a ideia de um filme sobre a Guerra da Bosnia nasceu do seu trabalho na ONU, das incontaveis mulheres que encontrou e que foram brutalizadas. Comecou a escrever um roteiro – assim, como exercicio. Brad (Pitt) leu e gostou. Sugeriu que ela levasse adiante e consultasse gente do ramo. O projeto foi se encaminhando assim. Quando amigos lhe sugeriram que fizesse o filme, e dirigisse, ela disse que soh o faria na Bosnia Herzegovina, com atores locais e falado na lingua da regiaoh. Nunca achou que conseguiria investidores, mas conseguiu. Um dia ela acordou e disse, consigo mesma – vou ter de fazer. Naoh assisti aa entrevista porque, na hora, fui ver a primeira sessao de Xingu, previa aa apresentacaoh oficial do filme de Cao Hamburger, na semana que vem. Havia ouvido algumas opinioes bastante reticentes, mas Joseh Carlos Avellar e Paulo Sergio Almeida me haviam tranquilizado, dizendo que era bom. E eh. Como em O Ano em Que Meus Pais Sairam de Ferias, o filme sobre os irmaos Villas Boas e sua luta pela criacaoh do Parque Nacional do Xingu termina abarcando os anos da ditadura. A descoberta do paraiso e sua destruicaoh, uma especie de exilio interno. A familia Villas Boas desintegra-se e o encontro com os ultimos silvicolas, os Kren, nos coloca face a um mundo que serah irremediavelmente destruido. A  figura desse indio, como surge no filme, eh magica. A criacaoh do parque carrega os signos de uma vitoria que eh, em si mesma, uma derrota. Em nome do progresso, eh toda uma cultura que vai desaparecer. Xingu eh um filme triste. Confesso que chorei.

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