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A luz no fim do túnel

Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2007 | 17h04

Não sei se vocês estão tendo saco de me acompanhar nessa conversa comprida suscitada pela exibição de ‘O Grande Búfalo Branco’ no Telecine Cult, mas quero arrematar com uma história. Por volta de 1960, quando eu era garoto, o mercado de cinema do Brasil era outro. O cinema de Hollywood já era hegemônico, mas o mercado não estava formatado para ele, como hoje. Víamos, além do brasileiro, muito cinema francês (nouvelle vague), italiano (Antonioni, Fellini, Visconti e as comédias de Dino Risi), alemão (Rolf Thiele), sueco (Bergman), japonês (Kurosawa e Kobayashi), mexicano (Buñuel e os melodramas com Libertad Lamarque e Maria Felix) e, claro, também o cinema inglês. Passei boa parte da minha infância no antigo cine Cacique, em Porto Alegre, que exibia a produção da Rank – a distribuidora oficial do cinema inglês -, assistindo a filmes com Kenneth More, Norman Wisdom e Sylvia Syms, embora, sinceramente, tenha minhas dúvidas sobre se vocês sabem de quem estou falando. Logo veio a nouvelle vague inglesa, o free cinema, com os filmes de Karel Reisz, Lindsay Anderson e Tony Richardson, mas eu confesso que gostava de alguns diretores da produção britânica mais tradicional da época. Já falei do J. Lee Thompson e tinha também o Basil Dearden, que fez um policial pelo qual eu era fissurado – ‘Safira, a Mulher sem Alma’, com a genial Yvonne Mitchell – e mais tarde, ainda nos anos 60, dirigiu o épico ‘Kartum’, opondo Charlton Heston como Gordon a Laurence Olivier como o Mahdi, que liderava as tribos árabes derrotadas na grande batalha do Sudão, em 1800 e pouco. Acho, retrospectivamente, que ‘Kartum’ devia ser um subproduto de ‘Lawrence da Arábia’, mas se é verdade que Kenneth Branagh tem fixação em Lord Olivier e filma para reinventar a carreira do maior mito do teatro inglês no século 20, então não sei o que o Branagh está fazendo que ainda não refilmou ‘Kartum’. A cena em que Olivier, falando com sotaque e envolto naquele manto branco, aponta os signos em seu corpo que o confirmam como guerreiro de Alá – o Mahdi – é uma coisa que nunca esqueci. Não vou dizer que tenha saudade daqueles filmes, mas que alguns eu gostaria de rever, ah, isso gostaria.