Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘A Louca de Maigret’

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Novembro 2009 | 12h56

Eu confesso que, às vezes, me sinto meio deslocado no mundo. Não sou burro – Caetano Veloso talvez discordasse -, mas existem coisas que ultrapassam minha capacidade de entendimento. Há anos tento ler José Saramago, o que é uma coisa que termino fazendo por obrigação, sem prazer nenhum, porque o cara me parece ilegível. Tentei ler ‘O Compromisso’, da vencedora do Nobel deste ano – o Oscar das letras -, Herta Muller, e a mulher é jogo duríssimo. Outra ilegível – deve ser condição sine qua non no Nobel. Em compensação, li no sábado um pequeno volume de Georges Simenon, editado pela L&PM, ‘A Louca de Maigret’. Uma mulher vai atrás do inspetor, diz que tem gente entrando na casa dela. Todo mundo, incluindo o próprio Maigret, pensa que é louca, mas a velha dama é assassinada e ele, movido pela culpa, investiga o caso. O livro é uma obra-prima e é o roteiro mais pronto que já vi. Simenon é um grande dialoguista e o desfecho amargo me fez continuar com o livro na minha cabeça. O que poderia ocorrer depois com aquelas pessoas, com aquela mãe que odeia o filho (e vice-versa), em particular? Fiquei construindo histórias na minha cabeça. O livro continuava me perseguindo. Não acreditei que material tão bom nunca tivesse sido filmado. Pois foi, para TV, com Jean Richard na pele de Maigret. Encontrei, numa página na internet, uma quantidade incrível de Maigrets, até um japonês. Sempre vi o personagem como Jean Gabin e, quando leio os livros, é como se estivesse vendo o ator em cena. Mas ele fez relativamente poucos filmes com o personagem. Seu melhor Simenon não é um Maigret, mas ‘O Gato’, de Pierre Granier-Deferre, com Simone Signoret. O próprio Deferre fez, também com Simone (e Alain Delon), ‘A Viúva’ (La Veuve Couderc). Seu Maigret, ou seus Maigrets, ele os fez para TV, com Bruno Cremer. Lembro-me que Simenon foi muito discutido ao revelar, em sua autobiografia, que fez sexo com 10 mil mulheres, a maioria prostitutas, às quais pagava. As feministas caíram matando. Mas o que me impressiona nele, e também impressiona em Patricia Highsmith, é essa capacidade de olhar o humano, em toda sua complexidade, e não precisar de mais do que pinceladas para expressá-lo. Existem livros que me marcam pelas frases finais. Machado de Assis conclui ‘Memorial de Aires’ falando do casal de velhos e dizendo – é a frase – ‘Consolava-os a saudade de si mesmos.’ Ricardo Guiraldes encerra ‘Don Segundo Sombra’ com ‘Me fui como quien se desangra’. Essas frases atuam, na minha imaginação, de um jeito que precisaria de um post muito maior para tentar explicar. Simenon diz, desta mulher, a suspeita número um, que ela nunca esquecerá, só isso. Você teriam de ler o livro, claro, mas é uma coisa tão linda, e tão triste, que eu chorei. Estava indo para o jornal, domingo pela manhã, no ônibus (era meu dia de proletário). Um velho chorando, patético. Que nada! Foi uma catarse gloriosa, coisa de que os gregos já entendiam, há milhares de anos. Sei lá, já que é para chorar, gostaria de encontrar hoje à noite – tomara! – uma fração, pelo menos, desse entendimento do humano no retrato do filho do Brasil, por Fábio Barreto. Vai ser difícil, considerando-se os últimos filmes do diretor. Mas quem diz que é impossível?