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A Louca de Chaillot

Luiz Carlos Merten

11 Dezembro 2006 | 09h49

Fui ver ontem A Louca de Chaillot e me encantei com o primeiro ato da peça de Jean Giraudoux. Havia visto o filme do Bryan Forbes com Katharine Hepburn, mas não conhecia o texto, propriamente dito. Tinham me dito que o primeiro ato era meio chato e o segundo, maravilhoso. Fui na contramão – achei o primeiro ato maravilhoso e o segundo, nem tanto, o que não significa que não tenha sido uma bela experiência ver a Cleyde Yáconis em estado de graça no palco, criando, com delicadeza, a louca que, para variar, concentra a sabedoria do mundo. Virou até clichê, a idéia do louquinho manso que se opõe às regras do jogo social e acena com a possibilidade de um mundo melhor. Philippe De Broca fez Este Mundo É dos Loucos (Le Roi du Coeur), que virou cult, no fim dos anos 60, e Fellini fez a Voz da Lua, que terminou sendo seu último filme, em 1990. Como não conhecia o texto, tive agora a sensação de que a ‘louca’ de alguma forma antecipa o filme do Broca e também tem a raiz de Blanche Dubois, de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, que virou filme de Kazan (Uma Rua Chamada Pecado). Mas quero falar do espetáculo por dois motivos. Tem um momento em que a louca critica o mundo no qual o dinheiro virou rei. Quer coisa mais atual? Passei ontem no Carrefour em frente ao Estadão na hora em que chegava a turma de segurança para trazer (ou recolher) o caixa. Entraram aqueles três caras, todos com o dedo no gatilho e olhando pra gente como se fôssemos bandidos. Não sei quanto a vocês, mas isso é uma coisa que me incomoda e até irrita muito. Me dá saudade do Julinho da Adelaide – Chama o Ladrão! Chama o ladrão! Hoje, vinha pro jornal e havia um carro-forte da Protege na frente do táxi. Tinha bandeirinha, Brasil – Ame-o. Do outro lado, uma placa – este veículo está autorizado a circular todos os dias e a estacionar em qualquer lugar. Claro – como diz a louca, o dinheiro é o rei do mundo, o que mais eu podia esperar? Cheguei no jornal e não sabia da morte do Pinochet, o mais cruel e sanguinário dos ditadores latino-americanos que surgiram nos anos 70. Pinochet carrega mais cadáveres nas costas do que o próprio Pol Pot, do Camboja. E claro que, além de violento, era corrupto, tendo usado o poder totalitário em benefício próprio – dele e da família. Pois bem, de novo me lembrou da ‘Louca’. Tem outra frase do diálogo em que ela diz que existem mortos e mortos. Existem os que não valem nada porque em vida também não valiam. Esta louca, de louca, não tem nada. É uma sábia.