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‘A Lenda de Lylah Clare’, Aldrich (2)

Luiz Carlos Merten

30 Novembro 2009 | 13h59

Comprei, há dias, já havia falado, a edição de outubro, acho que é isso, da revista ‘Cahiers du Cinéma’, que costuma chegar aqui atrasada. A revista dedica um extenso artigo a ‘A Lenda de Lylah Clare’, que, pelo visto, acaba de ser relançado na França. Quando o filme estreou, em 1968, um ano antes de ‘Triângulo Feminino’, muita gente escreveu que Aldrich se vingava do estúdio que lhe fizera expurgar as cenas de homossexualismo de mulheres – um célebre beijo na boca – em ‘Pânico em Singapura’, de 1954. ‘Lylah Clare’ tem elementos de ‘Um Corpo Que Cai’ (Vertigo), até pela presença, carnalíssima, da hitchcockiana Kim Novak, em seu próprio papel, o de uma estrela de cinema mitificada (e destruída pela máquina do cinemão). Sempre fui admirador de ‘Lylah Clare’, um dos filmes de Aldrich que realmente me pareciam dignos de resguardar, não só por sua ousadia na abordagem das cenas de lesbianismo – embora o tema não seja esse – e mais pelo ataque que o cineasta faz a Hollywood. Me lembro do desconcerto que produziu, na época, o que eu mais adorava – o desfecho com a propaganda de ração para cães na TV e a cachorrada que invadia o estúdio. Lembro-me de críticos que perguntavam o que era aquilo e sentenciavam – Aldrich está louco, acabado. ‘Cahiers’ agora descobriu que aquilo é genial e discute amplamente o que são aqueles cachorros, ou quem são? O público da era dos reality shows? Aldrich seguiu radicalizando e, em ‘Triângulo Feminino’, sobre os bastidores da TV, terminou o filme com Beryl Reid mugindo feito uma vaca, depois que a executiva Coral Browne lhe tomou a mulher (Susannah York) e o programa, assassinando a irmã George do seriado (o título original é justamente ‘The Assassination of Sister George’). Aldrich sempre foi um dos meus amores, não só pelo que conseguiu fazer, mas pelo que tentou (e foi derrotado em Hollywood). O curioso é que Aldrich, tão rebelde e ‘contestador’, era filho de banqueiro – como Walter Salles, mas esta é outra história. Tenho de admitir, e não me perguntem por que, já que gosto tanto de Aldrich, que nunca vi seu último filme, ‘Garotas Duras na Queda’, sobre mulheres e luta livre. Outro dia, alguém me pediu que postasse alguma coisa sobre o filme. Não o fiz por isso. Sei que tem gente que adora ‘All the Marbles’ (ou ‘The California Dolls’, os títulos originais, nos EUA e na Inglaterra) e, mesmo sem ter visto, tendo a lhes dar razão. Mulheres duras na queda tinham tudo a ver com Aldrich.