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Luiz Carlos Merten

11 Dezembro 2007 | 09h34

Spencer Tracy, Richard Widmark e Robert wagner – o western que Celdani pegou na Tv paga, tipo bonde andando, é ‘A Lança Partida’ (The Broken Lance), de Edward Dmytryk, de 1954. Tracy faz o velho rancheiro que descobre que sua família e o império que construiu a partir do gado estão se fragmentando. Há algo de Rei Lear na história, porque os filhos marginalizam o pai e só o bastardo (Robert Wagner) permanece fiel a ele. ‘A Lança Partida’ é um daqueles filmes citados sempre que os críticos querem falar das semelhanças entre o cinema do Oeste e o de gângsteres. Dmytryk tranpôs para o Oscar a trama de um clássico de Joseph L. Mankiewicz ‘Sangue do Meu Sangue’ (House of Strangers, de 1949), numa das raras vezes em que o grande diretor (e roteirista) não escreveu o material – o roteiro é assinado popr Philip Yordan. Gosto bastante de ‘A Lança Partida’, porque tem ali, no personagem de Robert Wagner, uma tragédia do idealismo que me seduziu (embora a produção seja anterior, vi o filme pela primeira vez mais ou menos na mesma época de ‘Rocco e Seus Irmãos’ e isso, de alguma forma, condicionou a minha visão do trabalho de Dmytryk). Curiosa figura, a deste cineasta. Dmytryk delatou companheiros comunistas à Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado dos EUA – o episódio chamado de macarthismo -, mas, ao contrário de Kazan, que também foi delator e desenvolveu um ódio que o transformou num dos diretores mais críticos de Hollywood, Dmytryk teria se rendido ao cinemão. Coloco no passado imperfeito, porque eu próprio incorri neste erro, de avaliar o diretor desta maneira. Dmytryk fez diversos filmes sobre a segunda chance, como se quisesse renascer com seus personagens. De três ou quatro deles, eu gosto bastante. Um é ‘A Lança Partida’, mas ele tem outro western, melhor ainda. Estou falando de ‘Minha Vontade é Lei’ (Warlock), com Richard Widmark, Henry Fonda e Anthony Quinn, que possibilita leituras metafóricas e psicanalíticas muito ricas. Dá para ver o filme como um estudo do macarthismo ou uma abordagem do homossexualismo entre caubóis, na ligação entre Fonda, o homem das pistolas de ouro, e Quinn, como seu guarda-costas debilitado e perturbado, para se dizer o mínimo. Mas eu ainda gosto de mais dois filmes de Dmytryk – ‘Os Insaciáveis’, sua adaptação do romance de Harold Robbins que ficcionaliza a história de Howard Hughes (e o filme é muito melhor, para mim, do que ‘O Aviador’, de Scorsese) e um pequeno filme com Gregory Peck, um thriller de paranóia chamado ‘Miragem’, feito depois de ‘Sob o Domínio do Mal’ (The Mandchurian Candidate) e meio herdeiro do clássico de Jophn Frankenheimer com Frank Sinatra e Laurence Harvey. Infelizmente, tenho de admitir que não conheço o filme de Dmytryk que P.F. Gastal, em Porto Alegre, considerava a obra-prima do diretor. Cada vez que falava de Dmytryk ele lembrava ‘Give Us This Day’, de 1949, com Sam Wanamaker e Lea Padovani, que passou no Brasil como ‘O Preço de Uma Vida’. O filme é da fase ‘comunista’ de Dmytryk, uma história social que o diretor fez no exílio, na Inglaterra, sobre trabalhadores imigrantes. Gastal achava o filme genial. Sempre quis acreditar que ele estava certo.

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