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Cultura » A lady e a prostituta

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Luiz Carlos Merten

01 Outubro 2007 | 15h48

RIO – Aproveito Rita Caddilac para falar sobre Deserto Feliz, que passou também ontem na Première Brasil. Não gosto, admito, do filme de Paulo Caldas. Não havia gostado quando o vi no Festival de Berlim e continuei não gostando em Gramado, embora lá tenha admitido que o filme possui qualidades estéticas, de realização, que me haviam passsado despercebidas antes, acho que pela própria irritação que o filme me causou. Essa irritação decorre da natureza da personagem. Deserto Feliz conta essa história de uma garota estuprada pelo padrasto e que se prostitui, indo parar num ‘rendez-vous’ – coisa mais antiga, mas era assim que se dizia em Porto Alegre, na minha juventude -, conhecendo no Recife um gringo que a leva para a Alemanha. Em Gramado, o filme ganhou o prêmio da crítica. Meus colegas redigiram o documento justificando a premiação. Eu me abstive. Fiquei ouvindo-os falar em denúncia do turismo sexual. Denúncia? O gringo não quer explorar a garota, mas quer que ela cresça. Sugere que ela faça cursos, alguma coisa de útil, para si mesma e os outros. Ela não age. É levada pela vida, como diz a canção que lhe serve de tema em Deserto Feliz. Devem existir milhões de garotas assim, mas eu não tenho interesse, não tenho empatia. Talvez, se Paulo Caldas tivesse filmado de outra maneira, mas qual? Não seria o filme dele, de qualquer maneira. Quando vi Deserto Feliz, a inércia, não a violência familiar, não a prostituição, me chocou. Pensei imediatamente em Sílvia, o belo filme de Gordon Douglas com Carroll Baker como prostituta que é estuprada e usa justamente o estupro como ferramenta para dar a volta por cima e sair daquele mundo sórdido. Acho muito bonito aquele filme, muito triste. No final, no branco-e-preto mais refinado do cinema, Carroll está toda de branco, os cabelos platinados. George Maharis, o detetive contratado para desmistificá-la e que se apaixona por Sílvia, declara seu amor e que quer ficar com ela. Não é um happy end. O estupro deixou seqüelas. Sílvia nunca poderá ser mãe, e ela se ressente disso. Ontem, ao ver A Lady do Povo e, depois, ao conduzir o debate com Rita Cadillac, vi quando ela falou de tudo – da prostituição, dos filmes de sexo explícito. Ela fez coisas horríveis, que as pessoas normalmente condenam, mas é uma mulher de família, e íntegra. Não precisa ter vergonha de nada. Uma mulher de respeito, guerreira. Como diria o Cristo, quem se sentir isento de culpa que atire a primeira pedra. Já que, como personagem de ficção, a personagem de Deserto Feliz não pode se mirar nesse espelho, espero que outras, as que são como ela, na vida real, se dêem conta de que, contra toda a adversidade, vale a pena lutar. Lembro John Huston, que construiu toda uma obra em torno desse tema – a luta é necessária mesmo quando se sabe, de antemão, que não existem chances de vitória.Rita, na vida, assemelha-se a Irina Palm, a personagem de Marianne Faithfull no fiklme de Sam Garbarski que vocês vão ver na Mostra. Há tempos que queria postar o por que não gosto de Deserto Feliz. Está sendo um alívio.

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