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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2010 | 14h43

Por onde começar? Fui ver hoje ‘A Jovem Rainha Vitória’, de Jean-Marc Vallée, produzido por Martin Scorsese. Gostei bastante, mas me pergunto se o filme teria me causado a mesma impressão se ontem não tivesse assistido a ‘Plano B’. Como a comédia romântica de Alan Poul, que me seduziu pela química entre Jennifer López e Alex O’Loughlin, ‘Vitória’ tem atores certos nos papeis, Emily Blunt e Rupert… Como é mesmo? Friend. Sei que já vi o cara, mas não me lembro onde.Victoria, Queen. O cinema contou muitas histórias sobre a mais longeva das rainhas britânicas, menos – filmes – do que Elizabeth (1ª), mas alguns bem interessantes. No começo do ano, revi em Paris ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’, de Billy Wilder. É o filme mais hitchcockiano que Hitchcock não fez e o menos cínico, o mais romântico, de Wilder. Vitória aparece na solução do mistério dos sete anões, que também envolve o roubo do projeto secreto pela agente alemã. O plano, ou os planos referem-se a uma nova arma, o submarino. Vitória manda que sejam arquivados quando seu almirante informa que o submarino permitirá atacar o inimigo de surpresa, mudando o c urso das guerras. Vitória escandaliza-se. Um ataque sem avisar? E o cavalheirismo, como fica? Lembro-me da velha Vitória, interpretada por Judi Dench em ‘Sua Majestade, Mrs Brown’, de John Madden, quando ela, viúva do príncipe Albert, sofre a dependência do cavalariço real. E também em ‘Os Jovens anos de Uma Rainha’, como Romy Schneider, descobrindo o seu Albert, mas o filme não ‘cola’, falado em alemão. Sei que tem um monte de gente falando mal, que o filme de Vallée só vale pelo figurino (vencedor do Oscar), que o roteiro de Julian Fellowes é fraco e indigno do cara que também ganhou seu Oscar (por ‘Assassinato em Gosford Park). Curioso, mas tenho cá comigo que o filme de Robert Altman é que é supervalorizado, sendo, como é, uma diluição de Jean Renoir (‘A Regra do Jogo’) pela via de Agatha Christie (e da dama do mistério eu entendo). Me emocionei com a jovem Vitória, ou Victoria, de Emily Blunt. Ela cria dependências erradas, mas Lord Paul Bettany tem a grandeza de lhe dizer que confie no marido, que arriscou a vida por ela. Justamente a cena em que Albert diz a Vitória que ele é substituível – ela não – acabou comigo. Me lembrei da Fernanda do Guia, dizendo que o Alex O’Loughlin de ‘Plano B’ cria um personagem idealizado. Sou do tipo que sempre define o cinema como uma janela aberta para a realidade, mas existem várias formas de retratar, ou interpretar o real. A própria fantasia é uma delas. O Albert de ‘A Jovem Rainha Vitória’ talvez também seja idealizado, frágil e forte, mas nisso ele se aproxima da rainha, tal como é criada por Emily Blunt. Uma das grandes cenas do cinema, para mim, já disse e repito, é a despedida de Errol Flynn, dizendo a Olivia De Havilland que viver ao lado dela foi um privilégio em ‘O Intrépido General Custer’, de Raoul Walsh. Aquilo é falso, até porque Custer não partiu para uma morte com glória, em defesa dos índios, como Walsh romanticamente sugeria (pelo contrário). Eu, pelo menos, preciso de romantismo, sinto muito por quem não. Adoro a cena de ‘Malena’, de Giuseppe Tornatore, em que a p… volta para a cidade de onde foi escorraçada de braço dado com o marido, que também retornou aleijado da guerra (perdeu um braço) e ambos enfrentam de cabeça erguida todo o mundo que usou/abusou da personagem de Monica Bellucci. Depois do filme de Vallée, fui ao Centro apanhar um sapato que havia mandado consertar. Fui telefonar num orelhão e vocês sabem – se não sabiam vão saber agora – que, no Centro, principalmente, eles são suportes de propaganda sexual. Havia essa pérola – um ‘santinho’ anunciando loira 100% vadia e com as especificações: oral até o fim e anal com dotado. Bom, isso é um choque de realidade, mas não creio que todas as loiras sejam vadias assim (nem legalmente ‘blondes’ como Reese Whiterspoon). A realidade tem muitas faces e a média deve se situar em algum ponto entre a dama do orelhão e a Vitória da ficção (ou a Jennifer de ‘Plano B’). Achei bem bonito, e não apenas visualmente, ‘A Jovem Rainha Vitória’.