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Luiz Carlos Merten

21 Agosto 2008 | 16h31

Tenho de parar de postar para encarar minhas matérias na edição de domingo do Telejornal. Vou emendar isso com cinema – hoje à noite teremos a inauguração do Festival de Curtas e também das salas do Shopping Cidade Jardim, que a assessoria garante que serão as mais luxuosas de São Paulo. O filme será ‘Procurado’ (Wanted), com Angelina Jolie, que ainda não vi e, como amanhã é dia de programa de rádio (na Eldorado AM), acho que vou nesta para ter o que falar nas estréias desta sexta-feira. Com tanta coisa para fazer, não posso mais ficar aqui postando, mas vou acrescentar um último post, rapidinho. Leonardo aproveitou meu post sobre Wenders em Porto, a parte em que falo sobre ‘Nick’s Movie’ – o cinema é veículo de vida e morte, por permitir que as coisas continuem existindo como imagem, mas na própria imagem (eternizada, sempre a mesma) está a negação da vida como existência concreta -, para fazer um paralelo com ‘A Invenção de Morel’, de Adolfo Bioy Casares. Amigo de Jorge Luis Borges, Casares compartilhava com ele o amor pela metafísica e pela literatura policial. Com o pseudônimo de Bustos Domecq produziram um livro que se tornou clássico – ‘Seis Problemas para Isidro Parodi’. Casares também escreveu sozinho, entre outros livros, ‘A Invenção de Morel’, que, quando li em português, tinha outro título, editado, como foi, acho que como ‘A Máquina Fantástica’, lá nos idos 70. Borges considerava ‘A Invenção de Morel’ o livro perfeito. Foi a fonte de inspiração para o roteiro de ‘O Ano Passado em Marienbad’, que Alain Robbe-Grillet escreveu para Alain Resnais (que, aliás, vai ganhar retrospectiva completa no CCBB, a partir de dia 3. Aguardem! No Rio, o evento já começou nesta semana). Leonardo diz que Morel encara a morte e é uma tremenda metáfora do cinema. É mesmo. A história trata de um homem condenado à prisão perpétua e que foge para ilha tornada incomunicável. Os que lá desembarcam morrem de uma epidemia desconhecida, menos o herói, que se esconde numa espécie de castelo, ou museu, para logo ser atraído por estranhos que também chegam ao lugar, principalmente pela misteriosa Faustine, figura feminina sempre a contemplar o pôr-do-sol. O fugitivo tenta se aproximar dela – e das demais pessoas -, mas ninguém percebe sua presença, a não ser por meio de referências a fantasmas. Todos esses personagens ‘secundários’ são produtos da ‘invenção de Morel’, uma máquina fantástica capaz de fixar momentos da vida de cada um dos amigos do herói. Faz muito tempo que li ‘Morel’ – muito! -, mas Casares, argentino de nascimento, marcado pela cultura européia (a francesa) foi um dos grandes que anteciparam a vertente fantástica associada à literatura latino-americana. E como Casatres era cinematográfico! Não foi por acaso que Robbe-Grillet e Resnais beberam na fonte de ‘Morel’. Vamos voltar a falar sobre o escritor no ciclo sobre Resnais. Anotem no seu caderninho – dia 3.

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