Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A integral de Jean Vigo

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

A integral de Jean Vigo

Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2008 | 18h34

Vou repetir uma idéia que Antônio Gonçalves Filho colocou na abertura de seu texto sobre o lançamento em DVD da obra integral de Jean Vigo pela Versátil. O texto foi publicado numa edição de domingo do ‘Cultura’ e Toninho dizia que Vigo só precisou de cerca de três horas – a duração de todos os seus filmes juntos – para produzir uma das obras mais duradouras do cinema. Paulo Emílio Salles Gomes, o grande crítico brasileiro, escreveu um livro sobre o artista, ressaltando a importância de ele ser filho de um anarquista que passou à história, Miguel de Almereyda (Vigo era pseudônimo; seu nome era, de verdade, Jean Almereyda). François Truffaut o amava e nunca me esqueço de uma coisa que ele escreveu e achei linda – quando vão para a cama, no final de ‘L’Atalante’, Jean Dasté e Dita Parlo fazem um filho e ele será Michel Poiccard, o herói godardiano de ‘Acossado’ (À Bout de Souffle), cuja idéia, falo do filme, veio de Truffaut, é bom acrescentar. Vigo teve uma infância e adolescência difíceis e no seu caso não se pode separar a vida do autor de sua produção cinematográfica. Ele saltou de internato em internato e essas experiências lhe renderam um de seus clássicos, ‘Zéro de Conduite’, ou ‘Zero de Comportamento’, que com certeza foi uma das fontes de influência quando Lindsay Anderson fez ‘Se…’ Tendo sido diagnosticado com tuberculose, Vigo foi se tratar em Nice, que virou a ‘sua’ cidade. Sua obra integral é formada por quatro filmes apenas, dois curtas e dois médias (com cerca de uma hora de duração cada), ‘A Propos de Nice’, ‘Taris ou La Natation’, ‘Zéro de Conduite’ e ‘L’Atalante’, também conhecido como ‘La Chalande Qui Passe’. ‘Zéro’ teve problemas com a censura, no começo dos anos 30, por sua descrição da vida no liceu e os produtores, temendo novos problemas com ‘L’Atalante’, se anteciparam e mutilaram o filme. Vigo morreu em 1934, em pleno combate por sua obra. Tinha 29 anos. Com o tempo, virou referência de independêncuia artística e humana, chegando a dar seu nome a um prêmio muito prestigiado na França (e que contempla jovens diretores). Até pela influência paterna – Miguel Almereyda dirigia o jornal de esquerda ‘Bonnet Rouge’ e morreu na cadeia –, o ‘maldito’ Vigo expressou com grande vigor lírico características como a generosidade ideológica e a ânsia de liberdade, que somava a profundo pessimismo e amarga crítica social. Seu resgate pela Versátil será um dos acontecimentos artísticos do ano, em DVD.