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Luiz Carlos Merten

04 Setembro 2009 | 12h12

Hoje pela manhã, me atrasei um pouco para sair de casa e preferi esperar pelo horário na Rádio Eldorado AM – 7h50 –, convencido de que não chegaria a tempo no jornal, para fazer daqui minha participação no programa do Caio e do Daniel Piza. Como tinha uns 15 ou 20 minutos de espera, voltei ao livro com a entrevista que Louis Malle concedeu a Philip French. Queria ler alguma coisa sobre os documentários da Índia. Malle conta que, após ‘O Ladrão Aventureiro’, viveu uma dupla crise, existencial e profissional. Um dia, estava filmando num estúdio e o fotógrafo lembrou-lhe que haviam usado aquele mesmo set, oito anos antes, em ‘Os Amantes’. Ele, que já não estava bem, surtou. Achou que começava a se repetir e passou a se indagar se ser cineasta era realmente o que queria. Estava nessa onda deprê quando Alain Delon lhe propôs a realização de um epísódio para o filme múltiplo adaptado das histórias extraordinárias de Edgar Allan Poe. Malle escolheu “William Wilson’, pelo tema do duplo, Delon já seria o astro, mas o que achei curioso foi a revelação de que queria fazer o filme com Florinda Bolkan, que admirava, mas ela ainda não era conhecida – não havia filmado com Visconti – e o produtor chutou o nome de Brigitte Bardot, com quem Malle já fizera ‘Vida Privada’ e ‘Viva Maria!’. Ele achou que BB não poderia aceitar, por outros compropmissos, mas disse ‘Por que não?’ Para sua surpresa, Brigitte topou e Malle trocou a exuberante cabeleira loira por outra morena, tentando ser – e fazê-la – diferente. A crise continuava quando Malle foi convidado pelo governo da França para ir apresentar uma semana do cinema francês na Índia, incluindo ’30 Anos Esta Noite’, que ele próprio havia feito. Malle foi e desse encontro com o país nasceu seu projeto de documentário, ‘A Índia Fantasma’, do qual dois episódios integram a programação do É Tudo Verdade. Malle conta o processo criativo e diz que quando os episódios passaram na França – em Cannes, 1969 – tiveram críticas divididas, mas foi só. Quando passaram na Inglaterra, na BBC, a comunidade indiana reagiu, protestou e criou-se um incidente diplomático. Malle participou de um debate televisionado com intelectuais indianos. A filha de um ex-ministro era quem mais lhe cobrava uma visão que definia como ‘preconceituosa’ do país. Ela queria saber por que Malle filmava pobres, místicos, mas não o Taj Mahal? Antes do debate, Malle fora informado de que ela seria sua crítica mais dura. E mais – seu pai, o ministro, havia sido exonerado por corrupção comprovada. Ele confessa que, em mais de um momento, teve vontade de agredí-la verbalmente, puxando a história de seu pai e que era por causa de corruptos como ele que havia tanta miséria no país, mas não o fez. Anos mais tarde, casado com Candice Bergen, Malle voltou à Índia para visitar a mulher, que filmava ‘Gandhi’. A imprensa anunciou – ‘He’s back!’ (Ele voltou). Malle havia virado o inimigo público número 1, quando ele diz que tentou filmar a Índia sem exotismo e com o respeito que sua cultura lhe despertava. Mas ele admite que seu erro inicial hsavia sido tentar entender a Índia pelo racionalismo francês. Quando desistiu e deixou-se absorver pelo país, o documentário fluiu… Interessante.