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Cultura » A imagem da contracultura

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Luiz Carlos Merten

24 Julho 2007 | 14h04

Cheguei agora no jornal, depois de assistir a Duro de Matar 4.0 – daqui a pouco falo sobre o filme –, e fiquei sabendo da morte de Laszlo Kovács. Laszlo quem? Se você não sabe quem é, não é cinéfilo de carteirinha. Húngaro de nascimento, ele emigrou para os EUA nos anos 60 com o amigo Vilmos Szigmond. Tornaram-se grandes diretores de fotografia, trabalhando com a nata da produção independente, boa parte da qual foi fazer os filmes da contracultura, por volta de 1970. Há dois anos, o Festival de Berlim fez uma retrospectiva do que foi chamado de anos dourados da produção independente, o decênio 1965/75. Não pude rever tantos filmes quantos gostaria, mas revi alguns – Sem Destino, por exemplo, numa tela imensa. Laszlo Kovács fotografou o filme-farol de Dennis Hopper, trabalhando com sub e superxposição de luz para expressar na tela os transes hipnóticos e as alucinações de personagens que ou estavam bêbados ou drogados. A cor em Sem Destino é magnífica e, logo em seguida, Laszlo Kovács fotografou, num belíssimo preto-e-branco, Lua de Papel, de Peter Bogdanovich. Seu currículo com mais de 60 títulos inclui filmes de Robert Altman, Bob Rafelson e Martin Scorsese. Em 2005, Kovács e Szigmond foram premiados, conjuntamente, pela Associação de Fotógrafos da Hungria. Ele morreu no sábado em sua casa, em Beverly Hills, enquanto dormia. Tinha 74 anos. O mais impressionante é que Kovács e Szigmond se tornaram conhecidos, em 1956, quando conseguiram filmar, em condições semi-clandestinas, os levantes de Budapeste, contra os soviéticos. Foi um longo caminho até a queda do Muro e a ruptura do bloco comunista, em 1989, mas tudo começou ali. Kovács e Szigmond filmaram horas de material, que conseguiram contrabandear para o Ocidente. Quando puderam partir, foram para os EUA, mas não para Hollywood. Ligaram-se aos diretores críticos do sonho americano.Grande Laszlo Kovács!