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Luiz Carlos Merten

01 Julho 2009 | 13h04

Recebi o livro ‘A Idade Média no Cinema’, coletânea de ensaios organizada por José Rivair Macedo e Lênia Márcia Mongelli, lançamento da AteliêEditorial. O livro foi idealizado a partir do curso de extensão ‘A Idade Média no Cinema’, realizado no primeiro semestre de 2001, o que explica por que títulos recentes como ‘Cruzada’, de Ridley Scott, sequer são citados no índice remissivo. Confesso que me aproximei do livro, senão com o pé atrás, pelo menos um tanto enfadado. Os filmes de sempre, pensei. Mas por que o mundo acadêmico não se interessa senão pelos filmes que já foram dissecados pela crítica? ‘A Paixão de Joana d’Arc’, ‘O Sétimo Selo’, ‘O Incrível Exército de Brancaleone’… Já era uma surpresa para mim que Tarkovski fosse apenas citado e não merecesse um capítulo inteiro de estudo com seu ‘Andrei Rublev’, com aquele extraordinário episódio do sino… É curioso que, na maioria das vezes, ao falar sobre a Idasde Média – ou qualquer outra fase da história –, os diretores o façam não apenas com a perspectiva atual, o que afinal é justificado, mas também para falar sobre o aqui e o agora, sobre o mundo no qual vivem(os). ‘Alexandre Nevski’, de Eisenstein, é sobre o personagem histórico – e a batalha no gelo –, mas é prinmcipalmente sobre Stálin. Neste sentido, eu até acho que o épico de Anthony Mann, ‘El Cid’, é melhor e mais puro. O filme é, em definitivo, sobre o herói das gestas medievais e da tragédia de Corneille, cujos diálogos Mann e seus roteiristas, …, reproduzem às vezes na íntegra. Achei muuito interessante a análise de outro filme com Charlton Heston, do qual gosto bastante, ‘O Senhor da Guerra’, de Franklin J. Schaffner, adaptado da peça do também diretor Leslie Stevens. Mas quero dizer que o meu pé atrás foi sendo substituído por um interesse cada vez maior e eu não li o livro. ‘Devorei-o’. Só fiquei baratinado com uma coisa. Há um capítulo inteiro sobre ‘Kristin Lavransdatter’, de Liv Ullman. fiquei com a maior vontade de ler o rtomabnce de Sigrid Undset, escritora norueguesa que recebeu o Nobel e que a própria Liv definiu para mim como ‘a maior história de amor já escrita’. Foi quando a entrevistei aqui em São Paulo. Ela havia vindo mostrar justamente ‘Kristin – Amor e Perdição’, numa mostra do cinema da Noruega. Incrível. Havia-me esquecido completamente dos detalhes do filme. Fuio ao arquivo do Estado e localizei, impressa, como papel, a entrevista com Liv. Não resisto na reproduzir o final. Apaixonado que sou por ‘Gritos e Sussurros’, conversei com Liv sobre o último plano da obra-prima de Bergman. as trës irmãs e a aias passeando bno jardim, sob o sol. É como se Bergman dissesse que, a despeito de todo tormento, a vida vale a pena, nem que seja por um momento. Disse isso para Liv, e olhem a resaposta dela, que me fez chorar. A lágrima escorreu, fazer o quê? ‘Devemos fazer esses momentos eternos. Nós dois aqui conversando, agora. Acho que a arte de viver é transformar estes momentos precisos, fazer com que sejam eternos, mesmo quando fugazes.’