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Luiz Carlos Merten

28 Fevereiro 2008 | 13h00

Tem umas coisas que eu erro à toa. Por exemplo, o DVD do filme do Bergman é ‘Monika e o Desejo’, com K e sem acento, e não ‘Mônica’, como grafei. Acho que não é grave, mas fica a ressalva, de qualquer maneira, porque agora o que quero é pegar carona no que escreveu Henrique em seu comentário no post. Henrique viu recentemente ‘A Hora do Lobo’ e disse que se surpreendeu fazendo uma ponte entre Bergman e Fellini, coisa que nunca julgara possível. Será que não? Nos anos 60, bem antes de produzir ‘O Ovo da Serpente’, na década seguinte – no período em que Bergman se exilou na Alemanha para fugir a seus problemas com o Fisco sueco -, Dino De Laurentiis tentou produzir não um, mas dois ou três filmes que unissem Bergman e Fellini no mesmo projeto. Um deles seria ‘A Bíblia’, que terminou sendo feito integralmente por John Huston (e o episódio em que o próprio Huston aparece como Noé, construindo a Arca, é legal). Bergman e Fellini sofreram a dura experiência da repressão religiosa na infância. Bergman colocou seu pai pastor em diversos filmes. Fellini investiu contra a Santa Madre Igreja em ‘Roma’ e ‘Amarcord’, mas a imagem da repressão religiosa em seus filmes é dada por aquela mulher grotesca que, da cama, ergue o dedo advertindo o jovem recém chegado à capital sobre as tentações e perigos que ela encerra, em ‘Roma de Fellini’. Ambos vivenciaram e resolveram (na arte), de forma diferenciada, a repressão. Vejamos. ‘A Hora do Lobo’ é de 1968 – fui checar -, logo depois de ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam) e do episódio ‘Daniel’, de ‘Stimulantia’. Depois viriam ‘A Vergonha’, ‘O Rito’, ‘A Paixão de Ana’ etc. Lembro-me do que todo mundo assinalou na estréia de ‘A Hora do Lobo’, algo dito pelo próprio Bergman, que aquele era seu filme mais pessoal. Fui procurar certa vez no arquivo do ‘Estado’ e encontrei um texto da época, assinado por Maurice Capoville, que dizia mais ou menos o seguinte – não havia obra mais livre e intocável, mais hermética e aberta a todo tipo de interpretação do que ‘A Hora do Lobo’. Sua lógica não é a da realidade, mas a do sonho e da fantasia, do horror e da inverossimilhança. A hora do lobo é aquela, na madrugada, em que as pessoas soltam suas resistências e convivem livremente com os próprios demônios. Em ‘Persona’, Bergman já colocara o filme dentro do filme. Em ‘A Hora do Lobo’, ele radicalizou e a última cena mostra Liv Ullman que sai da personagem e, com o diretor e os integrantes de sua equipe técnica, abandona o estúdio. A propósito da metalinguagem de Bergman, lembro que Paulo Francis dizia – Godard, outro metalingüístico, havia lido somente as orelhas dos livros que Bergman devorara inteiros. Só como curiosidade, vale lembrar o que Fellini estava fazendo na época – 1968 foi um ano sabático do diretor italiano, que planejava um filme que não concluiu, no ano seguinte, ‘Black Notes di Un Regista’. Mas em 1967 Fellini fez seu episódio ‘Tre Passe nel Delirio’, de ‘Histórias Extraordinárias, em que Vadim, Malle e ele adaptaram contos de Edgar Allan Poe. Não existe, na obra felliniana, filme que tenha, mais do que ‘Três Passos no Delírio’, a lógica (ou falta de lógica) do sonho. Cada um com suas preocupações específicas, Bergman e Fellini estavam trabalhando os mesmos elementos – e a linguagem -, na mesma época, de uma forma que, no fundo, era bastante próxima. Pode-se dizer que Fellini talveaz tenha começado antes, em 1963, com ‘Oito e Meio’, mas em 1967/68 os dois estavam indo ao limite. Confesso que nunca havia pensado muito nisso. Foi a provocação, ou constatação. do Henrique que me motivou. Mas a ponte entre Bergman e Fellini não é tão difícil e, menos ainda, impossível, cada qual com seu estilo (e o de Fellini mais aberto para o fantástico).