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‘A Hora do Lobo’

Luiz Carlos Merten

01 Junho 2009 | 13h17

Por volta de 1970, escrevia na ‘Folha da Manhã’, em Porto. Foi a época da ‘popularização’ de Bergman no brasil. Até então, ele fora, nos anos 50, principalmente, um autor cult, para iniciados. Já havia recebido duas vezes o Oscar – por ‘A Fonte da Donzela’ e ‘Através do Espelho’ (Sason I Spiegel) –, mas permanecia secreto, para poucos. No final dos 60, o mundo e o cinema estavam mudando, a metalinguagem virou uma tendência forte e ‘Persona’ (Quando Duas Mulheres Pecam) explodiu, inclusive no Brasil. Logo depois, ocorreu aquela concentração de Bergmans nos cinemas brasileiros – não apenas seus velhos filmes foram reestreando, como novos filmes repercutiram. ‘A Hora do Lobo’, ‘Vergonha’, ‘A Paixão de Ana’… Por que estou escrevendo isso? Justamente porque ‘A Hora do Lobo’ (Vartimmen), de 1968, com Liv Ullman e Max Von Sydow, foi lançado em DVD pela Versátil, na sua Coleção Bergman. Queria escrever sobre o filme no ‘Caderno 2’, mas o Zanin já havia pedido para fazer o texto. Vou fazer uma coisa diferente. Minha ex, Doris Bittencourt, mãe da Lúcia, me havia pedido um texto para publicar no blog dela. Vou fazer o de ‘A Hora do Lobo’ especial para o blog da Doris, o que vai obrigá-los a visitar o endereço, caso queiram ler o que pretendo escrever, não sei se ainda hoje (tenho de sair para ver um filme à tarde). Sempre me impressionou muito, e a primeira coisa de que sempre lembro, a propósito de ‘Vartimmen’, é a cena, para mim emblemática, em que Borg, o personagem de Von Sydow, olha o relógio e vê passar um minuto. Parece bobagem. O cinema – Hollywood – muitas vezes fez filmes para coincidir o tempo real com o cinematográfico. ‘Punhos de Campeão’, ‘Matar ou Morrer’, ‘Viagem Fantástica’… Na maioria das vezes, mesmo ao insistir em planos de relógios, a intenção era sempre nos fazer esquecer de que o tempo existe, pelo simples fato de que a gente, nesses filmes, está sempre ligado na ‘trama’ (e na violência que ela carrega). Bergman nos faz sentir o tempo integral. Não creio que, em toda a história do cinema, exista outro minuto tão longo (e tão apaixonante, também) como em ‘A Hora do Lobo’. Assim como ‘Através do Espelho’, ‘Os Comunicantes’ e ‘O Silêncio’ haviam formado uma trilogia sobre o silêncio de Deus, ‘Vartimmen’ fecha outra trilogia – integrada por ‘Para não Falar dessas Mulheres’ e ‘Persona’ – consagrada à exploração introspectiva do inconsciente do ser e à angústia do artista diante do mundo contemporâneo (e o tormento da criação). É um grande Bergman, e um dos mais belos.

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