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A história da humanidade no deserto de Pobres Diabos

Luiz Carlos Merten

16 Julho 2017 | 13h11

No day after da premiação do Festival de Brasília do ano passado, estava sentado no lobby do hotel, esperando a condução para o aeroporto. Cida Moreira, ali perto, esculhambava o júri, suficientemente alto para eu ouvir. Já disse que foi meu último júri – pelo menos já recusei um este ano -, porque a experiência meio que me traumatizou. Mas confesso que não liguei muito para o que Cida dizia, porque não tinha distanciamento. Ela integrava o elenco de Deserto, de Guilherme Weber, e havia expectativa por determinados Candangos que o filme não levou. Não quero discutir isso, mas ontem, vendo Pobres Diabos, pensei muito em dois filmes dos quais o de Rosemberg Cariry talvez seja a síntese bem-sucedida, dois dos quais, em todo caso, não gosto (muito). Um é justamente Deserto, a trupe que chega à cidadezinha no meio do nada, e o outro, História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti. Prometo retomar essa conversa, porque será uma maneira de entender porque Pobres Diabos me encantou tanto. Começa pelo título, que soa, para mim, como reminiscência da literatura proletária de (Máximo) Górki. E não é uma história de circo, mas da humanidade. Everaldo Pontes, naquela Santa Ceia, celebrando o alimento – ‘Hoje temos, amanhã não sabemos’. Everaldo falando de amor justamente com Tarzan, seu (proibido? Obscuro?) objeto de desejo. E Sílvia Buarque, que diz que odeia o marido, acolhendo Gero Camilo no seu desespero, quando ele perdeu tudo – o circo, a cabra. A natureza humana é tão complexa. É maravilhoso ver como/quando/de que forma o cinema dá conta disso. Pobres Diabos é belíssimo. Visualmente, então… A fotografia de Petrus Cariry é das mais belas do cinema brasileiro.