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Cultura » A Guerra Civil de Ford

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Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2010 | 05h23

PARIS – Estou de volta a meu quarto de hotel, quase uma da masnhã na França, quatro horas menos aí no Brasil. Mas este texto não será postado agora. Já disse que não consigo acessar a internet do quarto. Terias de descer ao lobby, o que não pretendfo fazer e assim o post só será acrescentado na manhã de sábado. Fui ver ontem à tarde ‘A Conquista do Oeste’, com o belo episódio da Guerra Civil, dirigido por John Ford. Estranhos são os caminhos do cinema. George Peppard faz o herói fordiano que parte para a guerra. Ao abandonar a fazenda da família, George, que se chama Zeb no filme, olha para trás e tem a sensação dee estar deixando o paraíso. Mais tarde, quando ele volta, amargurado pela experiência, a terra não tem mais o mesmo mistério, ou encanto. Os mortos pesam para Zeb. A mesma paisagem revela outro significado e o personagem inicia seu desterro – a Odisséia, o mais fordiano dos temas. A mãe, Eve, a primeira mulher, é interpretada por Carroll Baker. O filme é de quando? 1962/63? Na mesma época, talvez um pouco depois, George Peppard foi o Howard Hughes disfarçado de Edward Dmytryk em ‘Os Insaciáveis’, que fazia de Carroll Baker, aliás, Jean Harlow, sua amante (e ela era também sua madrasta). Havia algo de incesto sugerido, apesar da ausência de laços de sangue, em ‘Os Insaciáveis’. Não haverá em ‘A Conquista do Oeste’? Afinal, os mesmos atores fazem agora mãe e filho. Na saída do cinema, com a cabeça a mil, encontrei Sérgio Leeman. Brincamos – nunca consigo encontrá-lo no Brasil, mas em Paris… Fomos tomar um café. Sérgio me contou das novidades. Está aqui desde setembro, um dia depois do início do Festival do Rio. Passou por Roma, mas mora, há alguns meses, num apartamento alugado no Marais, onde ainda trabalha num novo dicionário de cineastas, em parceria com A.C. Gomes de Mattos. Já temos os dicionários de Rubens Ewald Filho e Jean Tulard. O de Sérgio Leeman será único no Brasil. Com base em anotações de A.C., ele estabeleceu as filmografias de 500 e tantos diretores, muitos deles obscuros e a novidade é que estarão listados os títulos em português de filmes que muitas vezes datam do cinema mudo. Nenhum outro dicionário brasileiro fornece esse prodígio. Sérgio diz que uma obra dessas não tem interesse para muita gente – para A.C. Gomes de Mattos, para ele para mim. Eu acho que será uma fonte inestimável de pesquisa e espero que vocês concordem comigo.