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Luiz Carlos Merten

14 Julho 2007 | 18h05

Cara, Saymon, como pude esquecer que a Sonia Petrova está em Ludwig? Simples, talvez porque não seja, para mim, um Visconti essencial, embora a construção dramática do personagem do rei por meio da deterioração da sua arcada dentária seja uma idéia de gênio – que Ricardo Van Steen, conscientemente ou não, encampa em Noel, o Poeta da Vila, que estréia em breve. Noel vai apodrecendo e sua boca passsa essa idéia para o espectador. Feito o registro, quero dizer que dei uma olhada rápida no Guia do Estado, em busca de filme para ver, e topei com a Sessão Cinéfila do Arteplex, à meia-noite. O filme de hoje justifica o caminho de São Tiago, e de joelhos. É A Grande Ilusão, de Jean Renoir, de 1937, no qual um grupo de militares franceses é feito prisioneiro pelos alemães, durante a 1ª Guerra. Jean Gabin é o caporal, Pierre Fresnay, o oficial. Há mais solidariedade entre inimigos, Fresnay e Erich Von Stroheim, como o oficial alemão, seu carcereiro – ambos são aristocratas -, do que entre Fresnay e Gabin, seu subordinado. Com o fim do comunismo, ficou decretado que Marx, Engels e Hegel foram-se com o sistema, mas isso não é verdade. A luta de classes pode ter mudado de cara, mas ainda existe. Era o tema de Renoir no seu filme, quase sempre apontado – quando ainda se faziam aquelas votações – como um dos melhores de todos os tempos. Há 70 anos, Renoir antecipava que a 2ª Guerra era iminente (e foi). A Grande Ilusão (título profético) foi seu manifesto antimilitarista, o que é diferente de ser pacifista (existem guerras que são inevitáveis e necessárias). A Grande Ilusão termina com o personagem perdido num campo de neve, tentando atingir a fronteira. O branco elimina todos os marcos – como a sepultura de Jophn Wayne, que some em Os Cowboys, coberta pela relva da primavera – e o que Renoir queria dizer é que as fronteiras são criações do homem, não estão na natureza. As fronteiras traçadas pelo homem estão na origem das guerras. Simples, não? Complexo, mais ainda. Olha, se há uma sessão cinéfila que eu assino embaixo, é esta. A Grande Ilusão é porreta!