Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A fotogenia da série B

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

A fotogenia da série B

Luiz Carlos Merten

02 Junho 2007 | 12h57

Levantei-me cedo hoje, mas a chuva me prendeu em casa, até que eu arranjasse coragem para sair e fazer o que queria (cortar cabelo e comprar DVDs). Valeu a pena. Havia comprado em Paris um livro que via há anos, mas minhas prioridades eram sempre outras e eu o deixava de lado. Este ano, encontrei La Photogénie de la Série B, de Charles Tasson, em oferta na Fnac, por 15 euros. Comprei, mesmo sem olhar, porque vinha envolto numa embalagem de plástico. É um belo álbum, capa dura, cheio de ilustrações. Tasson (ou será Tassoni? Fiquei em dúvida) define em primeiro lugar o que foi a série B, que identificamos no Brasil como filme B. Estabelece os gêneros em que ela foi mais pródiga – western, filme noir, filme de guerra, aventuras exóticas, ficção científica, fantástico (que engloba o horror). Analisa alguns diretores que deram ao formato sua carta de nobreza – Allan Dwan, Edgar G. Ulmer, Joseph Lewis, Budd Boetticher. Enumera algumns filmes – Gun Crazy, que se chamou no Brasil Mortalmente Perigosa, O Bandido (que foi o título que Madrugada da Traição recebeu na França). O caso mais exemplar é o de The River’s Edge, de Dwan, com Ray Milland, Debra Paget e Anthony Quinn, que Tasson(i) admite não ter visto. Como é possível um crítico dissecar um filme que não viu? Ele analisa um plano. Um homem de costas, do qual só se vê parte da perna, o punho crispado. Jpgada no solo de chão batido, a mulher – Debra num vestido branco de seda, meio transparente, totalmente em desacordo com o cenário. Ela pode ter sido lançada ao solo, mas não está derrotada. Olha para cima desafiadoramente e o seio empinado confere intensidade erótica ao movimento. No fundo, o que parece uma plantação, e nuvens. Tasson(i) acha que esse plano sozinho vale como manifesto do filme B. Estou na rua, postando de um cyber café. Em casa, eu pesquiso o nome do filme de Dwan, mas, se vocês quiserem me poupar trabalho, me digam qual é. Por que o plano é emblemático? Porque é muito bem armado, porque é minimalista, porque permite, mesmo sem ver o filme, encontrar ali resumida a essência do que o diretor quer dizer sobre homens e mulheres no mundo. Naquilo que se chama de olho, em linguagem jornalística – uma frase escrita num corpo maior que o restante do texto na página -, o diretor diz que filmou em locações e que o filme custou algumas centenas de milhares de dólares. Se fosse feito em estúdio, teria custado US$ 1,5 milhão, no mínimo. Vou ter de ler com mais atenção, mas vim para o centro de São Paulo pensando – este é o tipo do livro que a Cia. das Letras poderia editar, e fazer uma bela edição, mas não faz. O western, o filme noir, o filme B, o melodrama representam o esplendor do cinema de gênero e, como tal, são reverenciados na França como regalos de cinéfilos. Você entra numa livraria especializada em cinema e encontra toneladas destes livros. No Brasil, o interesse dos cinéfilos parece ter de estar reduzido a filmes de recorte mais social e político (embora esses também sejam, é o ponto de Tassoni(i) – como os diretores, trabalhando com baixos orçamentos, à margem dos contratos milionários dos grandes estúdios, conseguiam ser subversivos em relação ao sonho americano?). Foi um bela compra, a deste livro. E, daqui a pouco, vocês vão perceber porque me deu vontade de falar sobre ele.