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Luiz Carlos Merten

28 Julho 2010 | 10h35

Não, não mé o filme de Darren Aronofsky. Vinha hoje de táxi para a redação do ‘Estado’, descendo a Sumaré, e havia este carro preto na minha frente, todo fechado e com uma inscrição na trazeira. ‘Nada vai impedir a realização  dos planos que Deus tem para mim.’ Imagino que a intenção fosse boa, uma mensagem positiva, mas a frase mexeu comigo e eu vim construindo toda uma ficção. Assim como colocou Jó à prova, imaginei Deus submetendo essa alma a tentações – apesar de sua dedicação ao Senhor e a vontade de andar com retidão, imaginei as circunstâncias se voltando contra esse personagem hipotético. Nada, realmente, impede a rota de desgraças e provações que Deus traçou para ele. Vejam que devo ter entrado em delírio, porque de repente estava me lembrando de outra frase – ‘Tu não pecas senão para te submeteres a uma nova purificação’. Acho essa frase – de Keats ou Blake? – de uma beleza e complexidade extraordinárias. É a epígrafe de ‘A Fonte’, romance do inglês Charles Morgan que li bem jovem, ainda garoto, quando o livro saiu na Coleção Catavento, da antiga Editora Globo, em Porto. Já contei que minha irmã trabalhava na Livraria doi Globo e eu frequentava muito o velho prédio da Rua da Praia, onde via Mário Quintana, Erico Verissimo. Ereico era um Deus para mim. Quintana, depois, encontrava diariamente na lanchonete da Caldas Júnior, quando trabalhavas na extinta ‘Folha da Manhã’. Tenho, até hoje, a nostalgia de ‘A Fonte’. Tenho procurado pelo livro de Charles Morgan em sebos. Procurava também pelas aventuras de Sandokan, e nada. Assim como Emilio Salgari foi resgatado no País – e eu não consigo reler os livros sem ver o ator norte-americano Ray Danton, que fez o papel na Itália -, outra das minhas leituras da mesma época, o ‘Platero e Eu’ de Juan Ramón Jimenez, também saiu em nova edição. Espero que um dia Morgan também seja reeditado. Era um cara discutido. Os franceses o amavam, os próprios ingleses o desprezavam, um pouco porque Morgan foi uma ‘displaced person’. Nos anos 1950, quando ele fazia sucesso no Brasil, uma tendência realista se manifestava nas letras inglesas, com a geração dos angry men que renovou a literatura e o teatro e repercutiu no cinema, levando ao free cinema. Neste quadro, Charles Morgan era um corpo estranho. Imbuído de filosofia platônica, era um idealista que estendia seu refinamento aristocrático à própria maneira de escrever, como avaliou J.C. Ismael no 25º aniversário de sua morte, no Suplemento ‘Cultura’ de ‘O Estado de S.Paulo’. Fui ao arquivo do jornal, em busca da pasta de Morgan. Sei que a informatização é uma tendência irreversível, mas confesso que tenho minha alma de Indiana Jones e adoro pegar nessas velhas pastas para manusear as cópias de artigos que, às vezes, datam de cem anos atrás. Ismael escreveu seu texto em 1983, há 27 anos. Charles Morgan morreu há 52 anos. Quem ainda se lembra dele? Eu. Ismael observa que o tal refinamento literário de Morgan criava uma espécie de justiça poética em dissonância com os padrões realistas do seu tempo. E não é que ele recriasse o fluxo de consciência de um Marcel Proust, por exemplo. Charles Morgan era um clásssico embasado em sólidos e clássicos conceitos de filosofia e estética. “A Fonte’ integra o que não deixa de ser uma trilogia e há quase 50 anos, entre um Tarzan e outro, eu lia Morgan, Jimenez e Machado de Assis, que me encantavam pela profundidade. Outro livro de Morgan foi o ‘Sparkenbroke’, mas meu favorito era ‘A Fonte’, que gostaria de reler porque há uma parte do livro que me assombra. Sempre achei que daria um filme de Joseph Losey, alguma coisa no espírito de ‘Cerimônia Secreta’. Chama-se ‘O Elo’. O livro passa-se na Holanda, durante a 2ª Guerra, e os personagens centrais são uma aristocrata e um oficial que está prisioneiro, sob palavra, no local. Ela é casada, o marido está doente, e há uma passagem, numa torre, alguma coisa assim, que a condessa e o militar usam para seus encontros íntimos. Mas não se trata só de sexo. O romance é psicológico e existe a relação do oficial, acho que se chama Allyson, com o marido traído. Eles discutem o embate entre uma postura contemplativa da vida, ligada a um ideia de classe, e a necessidade de ação, até como reação à barbárie da guerra. Volta e meia penso em ‘A Fonte’. O livro será bom como me lembro? Valerá a pena redescobrir Charles Morgan? O final sempre me pareceu tão lindo. O oficial e a aristocrata voltam à Inglaterra, após a morte do marido dela. Esta parte chama-se ‘O Começo’ e tem como epígrafe uma citação de Milton, que não saberia reproduzir, mas fala do casal que, de mão dadas e hesitante, sem certeza de nada, penetra no Éden, juntos mas cada um imerso na própria solidão. Relendo o texto de J.C. Ismael, é evidente seu fascínio pelo escritor como ‘personagem’. Gênio sem talento, talento sem gênio. Ismael não chega a nenhuma conclusão. ‘O Elo’ me fascina. o próprio conceito platônico da contemplação, tão presente em Morgan, me intriga. Nada me é mais estranho, mas Morgan busca sua referência no ‘Fedro’ (para ‘Sparkenbroke’). ‘Poucas almas têm em grau suficiente o dom da recordação da contemplação das coisas desse outro mundo e, quando percebem por aqui uma imitação das coisas do além, ficam fora de si mesmas e já não se possuem.’  É mole?