Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘A Fonte’

Cultura

Luiz Carlos Merten

08 Março 2011 | 11h38

RIO – Cá estou na sucursal do ‘Estado’, redigindo os filmes na TV de amanhã. No fim da tarde, volto para São Paulo. Tenho exercitado bastante meu lado voyeur, confesso. Já havia vindo ao Rio durante o carnaval, mas sempre num esquema bate/volta. Vinha, desfilava numa escola (Mangueira) e, no dia seguinte, já estava no avião, de volta. Agora, tendo ficado na cidade durante os quatro dias da festa, pude ver como ela transtorna (e transforma) a vida na cidade. Em São Paulo, o carnaval fica localizado. Aqui, se alastra. São cerca de 700 blocos (700!) espalhados por todo canto, a toda hora. O carnaval é uma festa da carne. Vira todo mundo canibal. O sexo, não propriamente o amor, está no ar. Nestes momentos, lembro-me do poema de William  Blake – acho que é dele – que Charles Morgan usa como epígrafe de seu romance ‘A Fonte’ – ‘Tu não pecas senão para te submeter a uma nova purificação’. É uma das coisas mais belas (e profundas) que já li. Revela compreensão da natureza humana. Confesso que não tenho paciência com gente que vive rezando, com esses crentes que vivem nos ameaçando com o fogo do inferno. Deus, se existe, tem de ser pai. Deve conhecer a fragilidade do barro com que nos construiu. E embora o Deus do Velho Testamento seja autoritário, o ‘meu’ Deus há de ser misericordioso. Acabo de redigir o mini texto sobre ‘Gigolô Americano’, que passa amanhã na TV. Adoro o filme de Paul Schrader. Acho que é o papel da vida de Richard Gere. Pouco antes, ele já fizera outro gigolô, em ‘À Procura de Mr. Goodbar’, de Richard Brooks. É o único filme de Brooks do qual não gosto. Acho-o de um moralismo insuportável. Diane Keaton é uma bela da tarde (da noite?) para a qual não existe salvação. O gigolô de Schrader veste ternos (Armani) bem cortados. Gere, mais atlético que nunca, é formatado para o prazer. Mas, no fundo, no íntimo, é um solitário. Ele se envolve com essa mulher, uma cliente. Vai preso, acusado de assassinato. Schrader ama a transcendência de autores como Robert Bresson, Yasujiro Ozu e Carl Theodor Dreyer. Ele filma de forma estilizada, usa a música techno de Giorgio Moroder que cria o clima perfeito para o universo que retrata. O som ecoa nos meus ouvidos. Tãrãrã, rãrãrã, tãrãrãrá… Sugere o sexo, que não mostra. Reproduz o desfecho de ‘Pickpocket’, com direito à fala do (anti)herói de Bresson. ‘Percorri um longo caminho para te encontrar. Precisei ser preso para me libertar.’ Quando vejo toda essa humanidade solta, desenfreada, penso no poema de Blake e no filme de Schrader, naquilo que ele deve a Bresson. Acho que isso é inédito na minha vida. Cinco dias, desde sexta, e não fui nenhuma vez ao cinema. Espero ir hoje à noite, ao regressar a São Paulo. Mas tenho escrito bastante sobre cinema, claro. Na edição de hoje do ‘Caderno 2’, há um texto sobre o lançamento (em Blu Ray) de ‘Todos os Homens do Presidente’. E tenho publicado, diariamente, os filmes na TV. Vou olhar os comerntários de vocês, em busca de algo que me inspire.