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Cultura » A Floresta dos Mortos

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Luiz Carlos Merten

26 Maio 2007 | 11h26

CANNES – São 4 e pouco da tarde, 11 da manhã no Brasil. Daqui a pouco, às 6, ocorre a cerimônia de premiaçãso da Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica. Para quem irá o prêmio da crítica? Posso até preferir o romeno (Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias) e o turco/alemão (The Edge of Heaven) para a Palma de ouro, mas se integrasse o júri da crítica votaria em Mogari no Mori, da japonesa Naomi Kawase, que não tem cara de filme premiável pelo júri. O título quer dizer alguma coisa como A Floresta de Mogari e Mogari, informa o crédito final, refere-se ao culto dos mortos. É como voltar ao lugar em que nossos mortos foram enterrados. Só os enterrando também na consciência é que podemos ir adiante com nossas vidas. Havia visto o filme ontem, mas estava cansado no começo da sessão e dei umas ‘pescadas’. De repente, o filme me apanhou e eu viajei na parte em que duas pessoas, uma mulher jovem que perdeu o filho e um velho que perdeu a mulher há 33 anos – a data é importante porque, segundo o budismo, a cada 33 anos fecha-se um ciclo da existência -, adentram na floresta. Revi agora de manhã e, desta vez, não houve nem piscar de olhos. É duro, é triste, mas achei mágico. A dupla precisa ser purificada pela chuva e a mulher tira a roupa para aquecer o velho com o calor de seu corpo. Não existe erotismo na cena. Apenas compaixão, em mais essa variação da Pietà. Naomi Kawase trabalha muito com a dor da perda e a sua superação. Como seguir adiante? Outros filmes também trataram disso no festival – o coreano Secret Sunshine, de Lee Chang-dong, e o francês Sans Lui, de Gael Morel, com Catherine Deneuve -, mas nenhum com a densidade de Naomi.