Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A filha do quitandeiro

Cultura

Luiz Carlos Merten

21 Janeiro 2012 | 10h59

Assisti ontem ao show de Meryl Streep como Margaret Thatcher em ‘A Dama de Ferro’. Éramos muoitosd na cabine da Pàsris Filmes, incluindo Inácio Araújo. Meryl está papando todos os prêmios do ano e deve confirmar seu favoritismo na terça-feira, sendo indicada, mais uma vez, para o Oscar de melhor atriz. Mas vou dizer – será uma injustiça, se Jim Broadbent, que faz Denis, o marido da ex-premier, também não colher sua indicação para melhor ator. Ele é tão bom quanto Meryl e isso não representa pouco. Comentei com Gabriel Villela, com quem saí ontem para jantar – ‘Sua Excelência Ricardo III’ está em tratativas e deve finalmente desembarcar em São Paulo -, e ele, pegando carona no conceito do nosso ‘coletivo’, a que me refiro, brincando, com frequência, sobre suas peças (‘Hécuba’ é um assombro, sorry pelas especialistas que, infelizmente, não entenderam nada), perguntou se ‘íamos’ gostar do filme ‘A Dama de Ferro’. Sim, Gabriel, ‘vamos’ gostar. É impossível falar sobre o filme de Phyllida Lloyd sem fazer algum tipo de comparação com o ‘J. Edgar’, de Clint Eastwood, que estreia na semana que vem (‘A Dama’ será mais adiante, em fevereiro). Ambos tratam de temas e personagens ingratos. J. Edgar Hoover virou o símbolo do reacionarismo norte-americano e o filme de Clint, construindo-se em duas épocas, é sobre os ideais e sua degradação, um filme de velho, o próprio diretor, que pressente a morte e acerta as contas (consigo e a nação). Um dos aspectos que achei mais interessantes (o mais?), e ao qual não me referi no post anterior sobre o assunto, é que o último agente chamado para redigir as memórias de Hoover é negro, contesta suas afirmações e isso, logicamente, não é produto do acaso, mas me pareceu uma maneira inteligente de incorporar a era de Barack Obama a um relato que não a inclui. O filme de Phyllida Lloyd de alguma forma me lembrou Luchino Visconti. Lembram-se da deterioração da arcada dentária do rei em ‘Ludwig’? Não propriamente a arcada, mas Thatcher, quando o filme começa, está senil, devastada pela doença – Alzheimer – e assombrada pelo marido morto. Ela precisa enterrar Denis no seu imaginário, acabar com as alucinações para provar ao mundo, e a si mesma, que não está louca. Só que, ao fazê-lo – ao perder Denis, definitivamente -, ela perde seu arrimo com a realidade, porque a vida toda o marido foi seu suporte. Margaret, sem ele, seria só a filha do quitandeiro, renegada pela elite, a quem serviu no governo, e pelo povo, os sindicatos, que ela desmantelou na Inglaterra, virando – com o presidente Ronald Reagan, dos EUA, e o papa João Paulo II -, emblema de uma nova geopolítica, baseada no desmantelamento do comunismo e na afirmação do livre mercado. Os ingleses detestaram, claro,  mas o que o filme de Phyllida Lloyd tem de interessante é justamente a simplificação do approach da personagem. Thatcher baseia-se, como mulher e dona de casa, na economia doméstica para definir sua macroeconomia. Toma medidas impopulares, encarna a Inglaterra – a guerra contra a Argentina -, transforma-se em Lady Thatcher, mas basicamente nunca deixa de ser a filha do dono da quitanda da esquina. Citei um Visconti. Cito outro. Phyllida Lloyd – tenho sempre a tendência de escrever Phyllida Law, a mãe de Emma Thompson, e preciso me corrigir – deve ter visto ‘Rocco e Seus Irmãos’. Por que? Por que sua Thatcher tem alguma coisa do excesso autoritário de Rosario Parondi (a genial Katina Paxinou), cujas ações, por mais bem intencionadas que sejam, desencadeiam a tragédia familiar. Thatcher vai mais longe. Divide o país, desencadeia, até certo ponto, uma tragédia nacional. Meryl Streep já disse que hesitou muito antes de aceitar o papel. Como mulher de esquerda, amiga de liberais e progressistas, Thatcher representava, para ela, ‘a inimiga’. E o propósito do filme não era caricaturar e sim, entender a Dama de Ferro. Essa compreensão, no filme, vem por meio da relação com o marido. Tive, diante de ‘Dama de Ferro’, uma reação exatamente oposta à que me provocou ‘J. Edgar’. Não gostei de ver o filme de Clint Eastwood, mas penso nele e percebo suas qualidades. Gostei de ver ‘A Dama de Ferro’, embora seja fácil criar restrições ao filme de Phyllida Lloyd.  A verdade é que Meryl, Broadbent e a garota que faz a jovem Margaret construíram um retrato válido da mulher que minha geração sempre quis exorcizar.

Encontrou algum erro? Entre em contato