Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A ficção imita a realidade

Cultura

Luiz Carlos Merten

09 Março 2007 | 15h22

Mentiria, se dissesse que gostei de Hollywoodland – Bastidores da Fama, mas existem alguns aspectos do filme do Allen Coulter que me intrigam. A história mistura realidade e ficção partindo de um fato – em 1959, o ator George Reeves, que fazia o Super-Homem na TV, foi encontrado morto. A polícia disse que havia sido suicídio e de nada adiantaram os protestops da mãe dele, que garantia que o filho não era homem de se matar. Isso é fato, é história, é real e, inclusive, desencadeou a fantasia da maldição de Superman, que atinge os atores que fazem o papel (Christophe Reeve sofreu aquele acidente e ficou paralítico, não?). Coulter teceu, a partir daí, uma ficção, com esse personagem do detetive que investiga o caso e descobre que Reeves era amante da mulher de um executivo da Metro, o que abre espaço para a especulação – foi suicídio ou assassinato? O filme, você vai ver, é a história de dois perdedores, o astro que, ao contrário do personagem que interpreta, é frágil e o detetive que anda por baixo e espera adquirir visibilidade na mídia com sua investigação. Achei muito interessante a escolha dos atores. Allen Coulter chamou Ben Affleck para fazer George Reeves e Adrien Brody para ser o detetive. Brody ganhou o Oscar (por O Pianista) e é certamente um ator talentoso, mas não há jeito de deslanchar na carreira. Nada do que faz adquire muita repercussão, nem mesmo o remake de King Kong, que é bom. mas não se transformou no filme/evento sonhado por Peter Jackson. O caso de Ben Affleck é mais exemplar. Depois de dividir o Oscar de roteiro com Matt Damon, por Gênio Indomável, Ben tentou ser herói de ação, mas os filmes foram todos mal de bilheteria e o golpe final na credibilidade dele foi o fato de namorar Jennifer López e ambos ficarem alardeando que queriam um filho. Foram anos nesta lenga-lenga. Um dia, ela deu um pé nele e num par de meses estava com outro marido, e grávida. Ben Affleck virou alvo de chacota nas revistas de fofocas. Desistiu de ser herói, fez este filme e ganhou o prêmio de melhor ator em Veneza. Matt Damon seguiu o caminho inverso. Quis se afirmar como ator dramático trabalhando com Coppola (O Homem Que Fazia Chover) e Minghella (O Talentoso Ripley, que tinha cenas em Veneza, lembram?), mas não aconteceu. Aceitou o papel de Bourne e virou o novo herói de ação que Affleck não conseguiu ser. Acho que o diretor Coulter deve ter pensado nisso. Hollywoodland é sobre George Reeves e um detetive fictício, mas poderia ser sobre Ben Aflleck e Adrien Brody. Claro, não teríamos o crime, ou suicídio?, mas os temas (da relatividade) do sucesso e do fracasso seriam os mesmos.