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Luiz Carlos Merten

16 Agosto 2008 | 09h44

GRAMADO – Terminou ontem à noite a mostra competitiva do 36º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Foram exibidos dois filmes, os últimos, o português (mas que é co-produção com o Brasil) ‘O Mistério da Estrada de Sintra’ e o brasileiro ‘A Festa da Menina Morta’, de Matheus Nachtergaele. Vou postar alguma coisa correndo, porque daqui a pouco teremos a reunião do júri da crítica. Este ano, Gramado vai divulgar antecipadamente os prêmios dos júris paralelos. Às 11h30, serão anunciados os vencedores dos júris da crítica, do popular e do de estudantes. Imagino que, ao meio-dia, esses resultados já estarão no site oficial do festival, www.festivaldegramado.net. Em primeiro lugar, quero dizer que tenho estado em guerra com o idioma. Que feio! Escrevi no outro dia ‘O Serro da Jarau’, quando é com C, ‘O Cerro’. Inversamente, escrevi ‘O Mistério da Estrada de Cintra’, com C, e é Sintra, com S, embora na primeira cena – posto que se trata de um argumento folhetinesco – vejamos o autor escrever Cintra com C, uma forma mais arcaica. Tenho a impressão de que só meu amigo Carlos Eduardo, de Londrina – que aqui está com o filho e o Enrico faz amanhã 14 anos (felicidades, guri!) – e eu curtimos o folhetim que envolve a participação, como autor (e personagem), de Eça de Queirós. O filme é meio pesado, tenho de concordar, mas a história é boa e eu a acompanhei fascinado. Achei muito interessante a composição física de Eça. É um dândi, um pouco parecido com o Daniel Day-Lewis de ‘Uma Janela para o Amor’, mas ao contrário do personagem de James Ivory, nosso dândi português responde à violência com bravura (e virilidade), como não se espera de um tipo daqueles. Será licença ficcional ou tem fundamento histórico? Preciso checar com o diretor. Na seqüência, revi o filme de Matheus, a que já assistira em Cannes. Não sou o maior fã de ‘A Festa da Menina Morta’ – aquele universo primitivo de crenças, em que a religiosidade histérica do Santinho (personagem de Daniel de Oliveira) sufoca as pessoas – mas ele próprio é vítimas de seu mito -, me parece muito fechado. Não consigo entrar. Em compensação, curti mais o que já havia me atraído antes. Matheus trabalha as cenas quase isoladamente. Uma das melhores nem tem função narrativa – é aquela em que o índio chama para a dança seus amigos (e que foi aplauidida durante a projeção). Adoro aquela cena, mas tem outra que me parece ainda melhor, um plano-seqüência com Daniel de Oliveira e Cássia Kiss, em que ela, como a mãe que partiu, volta para um diálogo decisivo, que atormenta o filho e o fragiliza. Daniel fica ao fundo, Cássia em primeiro plano. E ela fala sobre homens fortes e fracos, sobre a sua necessidade de se sentir dominada e, na realidade, percebemos que tudo o que ela diz de si revela o filho, sua ambivalência. Matheus trabalha tanto as cenas – em textura e intensidade – que às vezes me parece que o tecido dramático do filme, a sua narrativa, fica meio esgarçado, mas de qualquer maneira foi uma experiência e tanto assistir ao filme de novo. “A Festa’ é forte. Tem aquela cena em que o Santinho é sodomizado pelo pai, com quem mantém uma relação incestuosa. Ela pode ser considerada chocante, mas a mim incomoda muito mais o som da chuva incessante, como mais tarde o som da matança do porco será levado ao limite do (in)suportável, provocando uma das tantas explosões de histeria do personagem de Daniel de Oliveira. Queria postar logo sobre essa última noite da competição. Depois, falo um pouco do festival em geral e do curta de Bressane sobre Antonioni, ‘Encontro em Ferrara’. Muito justamente, os curtas. Vi muitas qualidades esparsas, uma cena aqui, outra ali, uma idéia cá, outra acolá, mas em geral não me impressionaram muito, exceto o ‘Booker Pittman’ de Rodrigo Grota, que prossegue com as pesquisas de linguagem de ‘Satori Uso’, só que de outra forma. Vamos ao encontro da crítica.