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Luiz Carlos Merten

24 Março 2008 | 12h48

Confesso que não tenho um registro muito forte de Tamara Jenkins, a diretora de ‘A Família Savage’.Tinha certeza de que a conhecia, o nome me era familiar. Fui ao Google e só identifiquei um filme que ela escreveu e dirigiu no fim dos anos 90 e que eu vi na TV norte-americana – ‘Slums of Los Angeles’, sobre uma garota e sua família disfuncional, em 1976. Imagino que seja um tema recorrente para ela, porque também se faz presente em ‘The Savages’. Fui ver no IG, lá na Fradique Coutinho, em Pinheiros (perto da minha casa). No começo, restava incomodado com aqueles personagens – gente mais horrível. Laura Linney e Philip Seymour Hoffman enfrentam o dilema sobre o que fazer com seu velho pai, que está demente. Não é que eu, pessoalmente, tenha me sentido incomodado e achado os personagens horríveis. É uma intenção da roteirista e diretora, porque, de repente, as coisas começam a fazer sentido, os personagens desagradáveis vão se humanizando e o filme terminou me emocionando. Boa parte desta emoção passa pelos atores, e Laura e Philip Seymor Hoffman são óptimos, para dizer-se o mínimo. Adoro Laura Linney, que já entrevistei uma vez (por ‘O Exorcismo de Emily Rose’). Ela é uma mulher bonita, não particularmente bela, não particularmente sexy, que me lembra Lee Remick. Uma atriz e mulher, não uma estrela, humana, verdadeira. Adorei conversar com ela. É uma daquelas pessoas, como Vanessa Redgrave, Emma Thompson e Liv Ullman, que te fazem sentir que aquela conversa não é irrelevante para elas. É uma troca, elas te fazem sentir importante. Reconhecem o outro, o interlocutor. Soube que, na ‘Veja’ desta semana, Isabela Boscow publicou um texto sobre as vantagens de atores e atrizes que não são astros nem estrelas e roubam a cena. Não é exatamente a mesma coisa, mas tem a ver com meu texto na capa de hoje do ‘Caderno 2’ (e por isso alguns colegas vieram me comentar, na Redação, o texto de ‘Veja’). Minha entrevista é com Cássia Kiss, que mostra, em ‘Meu Nome não É Johnny’ e ‘Chega de Saudade’, que não é o tamanho do papel que faz o brilho da nterpretação. ‘Chega de Saudade’ não tem um (ou uma) protagonista. Os papéis são todos episódicos, mas muito fortes e o elenco todo é maravilhoso, só que eu tenho de confessar que Cássia, Betty Faria (tão constrangediora em ‘Bens Confiscados’) e Leonardo Villar e Tônia Carrero me tocaram profundamente. Cássia é maravilhosa como a juíza de ‘Johnny’. Aparece o quê? Um par de cenas, mas é o que basta. Volto aos Savages. Quando Laura Linney transforma seu drama familiar em matéria-prima para a peça que escreve, acho, não é nenhuma grande descoberta, que é a própria Tamara Jenkins. E, Deus!, que esta mulher é boa atriz. Lembro-me de Rubens Ewald Filho, na noite do Oscar, derramando-se em elogios para Laura e lembrando que ela já havia sido indicada para o prêmio outras vezes. Laura é um pouco como Julianne Moore e, pela persistência, somada ao talento, não duvido que ela terminará levando seu prêmio da Academia de Hollywood. E vai ser merecido, podem crer.