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A estratégia do sonho

Luiz Carlos Merten

18 Dezembro 2008 | 00h04

Tive hoje um dia bastante movimentado. Comecei cedo fazendo as matérias do dia para o ‘Caderno 2’, corri ao Cinemark do Shopping Eldorado para assistir a ‘Bolt Supercão’ – e adorei a animação; só me falta agora conferir ‘Marley e Eu’ para satisfazer meu lado cinófilo -; na seqüência assisti à tarde, na cabine da Paris, a ‘Crepúsculo’ e se vocês acham que seria suficiente… Bem, não foi. Ainda corri ao CCBB para o início da programação em homenagem a Bernardo Bertolucci. Vai ser o tema deste post. E vams aos parágrafos, de novo.
Já disse que gravei ontem uma entrevista para o Metrópolis. A repórter começou me perguntando justamente qual a importância de Bertolucci e do ciclo que tem curadoria de Joel Pizzini. O recorte de Joel privilegia o intercâmbio que houve nos anos 60 e 70 entre os jovens diretores italianos e os brasileiros – Glauber morou e trabalhou em Roma; Leon Hirszman idem, e lá fez seu documentário, como é mesmo que se chama? ‘Bahia de Todos os Sambas’? O intercâmbio pode ter existido, ou melhor, existiu, mas acho um tanto exagerado dizer que Bertolucci foi influenciado por Glauber e por Paulo César Saraceni. Na verdade, quando o entrevistei – pelo telefone -, por ‘Os Sonhadores’ e tentei fazer a ponte entre alguns de seus filmes e Visconti, o próprio Bertolucci me disse que só teve um mestre, e foi Roberto Rossellini, em cuja fonte também beberam Glauber e, principalmente, Saraceni. Mas Bertolucci me mentiu, claro, numa boa. Filho de poeta, nascido em Parma, em 1941, ele chegou ao cinema através de Pasolini, de quem foi assistente em ‘Accatone’ (Desajuste Social). Pasolini lhe forneceu o tema para seu primeiro longa, ‘La Commare Secca’ (A Morte) – e os raggazzi di vita da periferia romana parecem saídos de um raconto, senão exatamente, de um filme de Pasô. O que unia toda essa gente – Glauber e Pasolini foram grandes agitadores culturais – era o sonho, e acho que Joel Pizzini não errou ao dar ao ciclo o título de ‘A Estratégia do Sonho’, para definir o primeiro cinema de Bertolucci.
Todos eles, Glauber, Bertolucci, Pasolini e também Godard, acreditaram na utopia de que era possível revolucionar o cinema e o mundo. Na verdade, talvez tenha sido mais fácil dinamitar e reorganizar as estruturas narrativas e industriais do cinema do que difundir o mito da revolução, como acreditava aquela geração de sonhadores de Maio de 68. O próprio Bertolucci não se sentia viscontiano, mas acho que há alguma coisa de Visconti, sim, na dramaturgia e plasticidade – poética e/ou operística – de filmes como ‘Antes da Revolução’ e ‘O Conformista’. ‘Prima della Rizoluzione’ incorpora Stendhal, ‘A Cartuxa de Parma’, e quando Bertolucci denuncia o conformismo e mediocridade da Italia que dorme (e sonha) com o fascismo, Il Conformista’ é contemporâneo de ‘Os Deuses Malditos’, sobre o nazismo. Havia algo de Visconti, sim, mas também havia um Godard mal digerido – ‘Partner’, sobre um homem e o duplo que parece agir por ele, é um filme tão disparatado, conceitual e dramaticamente, que me parece um equívoco, o maior de seu autor. Godard volta via aquele irritante Jean-Pierre Léaud armado de uma câmera em ‘Último Tango em Paris’, que a censura do regime militar proibiu, por causa da cena da manteiga, mas o filme é muito mais do que sobre um cara (Brando) que sodomiza a parceira (Maria Schneider), com quem acertou uma relação puramente sexual, mas ele quer mais e ela agüenta mais a violência do que aceita a possibilidade de um vínculo afetivo.
O primeiro Bertolucci era, realmente, um sonhador. Não sou o maior fá da trilogia oriental (‘O Último Imperador’, ‘O Céu Que Nos Protege’ e ‘O Pequeno Buda’). Prefiro o tema do traidor e do herói (de Borges) em ‘A Estratégia da Aranha’, que volta com Moravia, em ‘O Conformista’, mas o ‘meu’ Bertolucci são dois – ‘Beleza Roubada’ e ‘Os Sonhadores’. Nenhum dos dois integra o ciclo. ‘Beleza Roubada’ narra a transformação de uma garota em mulher, mas isso é só meio filme, a beleza de Liv Tyler. A outra metade é o funeral da geração de Maio de 68, por meio da doença que consome as entranhas do personagem de Jeremy Irons. Só que Bertolucci nunca conseguiria enterrar a utopia daquele Maio e a prova foi ‘Os Sonhadores’, com os irmãos incestuosos Louis Garrel e Eva Green. Tenho de contar uma coisa – pode parecer boba, até, mas quando vi ‘Beleza Roubada’, em Cannes, tomei um choque. Liv Tyler parece-se muito, no filme, com minha filha – e ela se chama Lucy, como a Lúcia. Quando finalmente consegui entrevistar Liv Tyler, contei-lhe isso e ela foi de uma delicadeza, de uma sensibilidade insuperáveis. Disse-me que entendia bem de relações entre pais e filhas. Contei também para Bertolucci, e ele foi admirável – pediu-me que beijasse por ele a ‘minha’ Lúcia. Tudo bem, minha amiga Tuna Dweik me explicou hoje que essa cirurgia que fiz intervém no metabolismo e produz reações químicas, como essa emoção à flor da pele que, por momentos, ultimamente, parece que vai me engolir. Lembrei-me do beijo de Bertolucci na Lúcia e estou viajando na lembrança de certos filmes dele – a tia, inspirada na Sanseverina, de ‘Prima della Rivoluzione’, o primeiro tango em Paris, entre Dominique Sanda e Steffania Sandrelli, de ‘O Conformista’. O cinema não teria sido tão bom nas últimas décadas sem a contribuição – a estratégia – desse sonhador. Todos ao CCBB, portanto.