Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A escrava livre

Cultura

Luiz Carlos Merten

30 Maio 2007 | 05h41

PARIS – Volto hoje à noite para o Brasil e tem muita coisa que ainda quero fazer hoje aqui em Paris, inclusive ir a uma exposição (Rembrandt e a Pequena Jerusalém) e ir ao cinema de novo. Tive meu momento Wajda na Filmoteca do Quartier Latin, ao assistir a Um Clarim ao Longe, que aqui se chama La Charge de la 8ème Brigade. Aliás, são curiosos os títulos franceses de alguns clássicos – Rastros de Ódio, de John Ford, é La Prisionnière du Desert. Mas, enfim, quando Wajda apresentou Kanal em Cannes Classics, disse que era como voltar no tempo. Haviam se passado 50 anos desde que o filme ganhou um prêmio importante no festival e lançou sua carreira (e o próprio cinema polonês). Muita coisa mudou, mas ele ainda se sentia aquele jovem de 1957. Sua crença no cinema, no humanismo, na vida não foi abalada nem pelas transformações que mudaram o mundo. Me senti assim depois de rever Um Clarim ao Longe no ciclo Les Incontournables du Western. Já disse que Um Clarim ao Longe foi o primeiro filme sobre o qual escrevi, no mural da Faculdade de Arquitetura, em Porto Alegre. O País vivia sob uma ditadura e eu falava sobre um western. Imagino, retrospectivamente, que devia parecer um alienado, mas é impressionante como o filme do Walsh, fechando a obra do grande diretor, era não apenas um manifesto político como um filme que antecipava muita coisa que iria ocorrer depois (a escalada da Guerra do Vietnã, o direito do índio de lutar por sua terra). Troy Donahue era um ator horroroso, mas ele até hoje me emociona com aquela cara aparvalhada, arriscando a vida e a carreira para impedir a guerra entre os índios e a Cavalaria. E Um Clarim ao Longe tem Suzanne Pleshette, por quem eu era louco em 1964/65. Na mesma épçoca, Ford estava fazendo Crepúsculo de Uma Raça. Dois grandes autores de westerns, que haviam matado (na tela) mais índios que o General Custer, faziam seu testamento em defesa das minorias. Já era o tema de O Intrépido General Custer, que Walsh havia feito em 1941, com Errol Flynn, falseando a história (que só foi revelada depois) para transformar seu intrépido general num herói que morreu pelos índios em Little Big Horn. Parece doido, não é?, mas havia naqueles velhos uma integridade que me comove. Gosto de muitos filmes americanos atuais, mas essa grandeza se foi com um conceito dos EUA que Reagan e Bush Jr. enterraram, como Michael Moore não se cansa de nos dizer. Já imagino as semanais caindo de pau em Sicko, onde MM diz que uma sociedade tem de ser avaliada pela maneira comjo trata seus doentes e o bombeiro e a pára-médica que ganharam medalhas por sua dedicação no 11 de Setembro precisam ir a Cuba (a Cuba!) para receber, de graça, o tratamento que lhes é negado nos EUA. Alguém pode achar que MM é comunista – o último comunista, talvez? Enfim, vou para as 1001 coisas que quero fazer hoje – ia escrever neste último dia em Paris, mas espero que não seja o último. Uma delas é voltar à Filmoteca para ver outro filme de Walsh. Nunca assisti a Band of Angels, com Clark Gable no papel do proprietário de terras do Sul que se envolve com uma mestiça caçada como escrava (Yvonne De Carlo). Na França, este filme tem um título paradoxal, L’ Esclave Libre. A escrava livre. Walsh foi funcionário de todos os grandes estúdios de Hollywood. Não era um escravo, dirigindo todos aqueles astros e estrelas (toda Hollywood dos anos 30 a 60), mas tinha uma coração livre, com certeza.