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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2011 | 10h54

RIO – Estou aqui na redação do ‘Estado’, onde vim fazer os filmes na TV, numa etapa intermediária para a cabine de ‘4:44’, condição essencial para entrevistar Abel Ferrara. Houve sei lá que problema, o filme foi cancelado – ficou para amanhã – e eu não preciso iniciar minha manhã correndo. Ia ver o filme e voltar à sucursal para encarar a cobertura de amanhã do festival, mas agora posso ficar aqui e dar alguma atenção ao blog. Ontem, havia prometido um diário do Rio, mas terminei tendo de somar a mediação do debate sobre ‘Novela das 8’ ao já programado de ‘A Era dos Campeões’. Não sou ligado em automobilismo nem em F-1, que se resume para mim ao (belo) filme de John Frankenheimer, ‘Grand Prix’, nos tempos em que ele era bom. Mas vi com muito interesse e até emoção o filme de Cesário Melo Franco e Marcos Bernstein, que revelou, para mim, senão exatamente o reverso, pelo menos os bastidores do circo automobilístico. A dupla de diretores quis fazer o retrato de uma época, concentrando-se nos três maiores pilotos – Émerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. O projeto foi iniciado há mais de dez anos e parou por falta de patrocínio. O curioso é que nem me lembrava de, lá nos primórdios, ter feito uma matéria sobre ‘A Era’. Foi o primeiro filme de Marcos Bernstein (antes de ‘O Outro Lado da Rua’, que, ontem, na hora do debate, passava no Canal Brasil). Após, veio o outro documentário, exclusivamente sobre Senna – e a rivalidade com Alain Prost -, que estreou antes e é quase certo que vai para o Oscar da categoria. O filme me ganhou desde o começo, quando Wilson Fittipaldi conta a história do Porsche zerinho – sete quilômetros! – que seu irmão destruiu. Todo o tema do filme já está ali. A fascinação da velocidade, o risco, a destruição, a morte, os altos e os baixos de quem vive a vertigem da velocidade. Morto Senna, foi o único cuja voz só foi possível recuperar por meio de material de arquivo e o filme apresenta uma entrevista incrível, em que Ayrton, com arrogância ou sinceridade, diz que sempre teve tudo o que quis, que alcançou tudo o que esperava etc. Nunca fui de me postar diante da TV, nos domingos de manhã, para seguir o itinerário vitorioso de Senna, mas sei que ele virou o espelho de uma geração e que o seu ‘arrivismo’, na verdade, talvez fosse o que alimentou o mito. Ele tionha o carisma e o espírito do verdadeiro campeão. Melo Franco lembrou que os anos de ouro do Brasil na F-1 começaram e se consolidaram numa fase de baixa do futebol. O Brasil só voltou a ser campeão do mundo após a morte de Senna. Foi um personagem e tanto, mas eu confesso que me apaixonei foi por Piquet. Cesário Melo Franco diz que ele não tem superego. Piquet fala muita m…, mas eu o achei um personagem maravilhoso, complexo, apaixonante. Saí tarde, já noite, do armazém, no píer da Praça Mauá, onde funciona a sede do festival. Passei no hotel, jantei e já era tempo de ver ‘Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios’. O post está enorme. Continuo no próximo.