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Luiz Carlos Merten

02 Maio 2012 | 14h03

RECIFE – Não tenho postado há dias, mas é por conta da movimentação aqui no Cine PE. No domingo, acrescentei só um postezinho, participei dos debates e fui para a vida – isto é, o cinema. Fui rever ‘Os Vingadores’ e descobri depois, ao receber o comunicado da Disney, que isso significa que integrei as estatísticas que transformaram o filme sobre os heróis da Marvel na maior abertura da história do cinema no País. Na segunda, fui almoçar com Rubens Ewald Filho e o Ismaelino, do Pará, na Oficina do Sabor, em Olinda – dos deuses! Na volta, Pedro Bial e Heitor d’Alincourt me esperavam para conversarmos sobre ‘O Filho do Holocausto’. Gostei demais do filme sobre Jorge Mautner, que me revelou um artista muito maior do que aquele de que tinha registro. Cacá Diegues, homenageado deste ano, disse ao ex-genro – Bial foi casado com Isabel Diegues -, uma coisa que, para mim, matou a charada. ‘O Filho do Holocausto é documentário com vocação de ficção. Por questões de custo, mas também por causa do som, num filme em que a música é essencial, Bial e d’Alincourt filmaram em estúdio, durante quatro dias. Tudo foi muito planejado e a sensação, dentro da nova roupagem que as músicas ganham, é de que estamos, eu estava, num show. E aí veio o encontro de Mautner com a filha, uma das coisas mais belas que vi ultimamente, e não apenas no cinema brasileiro. Sou grande admirador de ‘Outras Histórias’ e acho interessante – revelador? – que Bial, como diretor de cinema, tenha feito uma ficção e um documentário, ambos inspirados em obras e artistas que pensam o Brasil. Conversamos sobre iso, sobre o projeto de nação de Guimarães Rosa, o de Jorge Mautner. Bial não se identifica com nenhum deles, mas é fascinado por ambos. É uma pena que tenha retirado do filme uma declaração de Mautner, dizendo que é comunista – um comunista que, de certa forma, chegou ao poder com seu parceiro Gil, no ministério. Entre as suas obras que pensam o Brasil, Bial banca o BBB, do qual se tornou o ‘senhor’, que os críticos amam odiar. Pois eu ousei dizer que o BBB, goste-se ou não, é um espelho do Brasil, não, talvez, na seleção dos personagens, mas na relação do público com o programa. O público é que reflete o País, um público que, ao contrário do restante do mundo,  só cresceu ao lomngo dessas 12 ou 13 edições e a mais recente bombou na audiência, mais que a primeira ou a segunda. Gostei demais de ‘O Filho do Holocausto’ e não comungo com a opinião de alguns colegas, e até diretores, que o acham ‘televisivo’. Também não concordo com a crítica de que Bial e d’Alincourt não tenham deflagrado a bandeira das drogas nem da sexualidade. Não eram relevantes para a abordagem a que se propunham, e eu não resisto a observar que Bial, criticado por expor a vida íntimas das pessoas nos edredons do BBB, foi agora condenado por respeitar a intimidade de Jorge Mautner. Não corro o risco de influenciar o júri presidido por João Batista de Andrade, que encerrou suas deliberações às 4 da manhã e já entregou o resultado à organização do Cine PE, mas acho que os documentários deram um banho nas ficções do 16.o Festival do Audiovisual. Meus favoritos para os Calungas desta noite são ‘O Filho do Holocausto’ e ‘Estradeiros’, road movie que viaja pela América Latina e encerra, para mim, uma dupla proposta fascinante, a estética e a humana (também política e social), dando visibilidade a pessoas que a gente olha sem ver, nas ruas, esses antigos, eternos hippies que praticam um conceito alternativo de vida, baseado naquilo que só posso considerar uma forma de resistência diante do individualismo e consumismo exacerbados que caracterizam o mundo pós-moderno das economias globalizadas. Espero que o júri tenha percebido isso. Agora, vou almoçar. Tem uns posts que ando querendo fazer. Antes de sair de São Paulo, na semana passada, revi, na TV paga, ‘Suprema Felicidade’. Todo mundo acha o filme anacrônico, Arnaldo Jabor, por suas crônicas (de direita?) é um sujeito que meus amigos amam odiar, mas eu, por mais distante que seja do pensador político, viajo na obra, como se aquela família fosse minha (e não é). Mariana Lima, Marco Nanini, meu Deus! E a cena da puta cortada a navalha no Mangue… Quanto mais revejo, mais me impressiono. O que é a beleza daquela mulher? E a dor do jovem protagonista? Sinto muito por quem opta por ignorar tanta dor, tanta beleza.

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