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Cultura » A despedida de Scola

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Luiz Carlos Merten

29 Agosto 2011 | 13h38

Acabo de redigir um texto para a edição de amanhã do ‘Caderno 2’ que muito me emocionou, sobre a despedida de Ettore Scola. Não, o diretor italiano não morreu, mas ocorre que, aos 80 anos – nasceu em 1931 -, Scola disse à revista italiana ‘Il Tempo’ que está se aposentando, para não fazer como essas velhas senhoras que colocam saltos altos e usam muito batom para estar com os jovens, sentindo-se um deles. Aproveitando a exibição de seu curta ‘1943/1997’ em Pesaro – o filme é sobre as detenções que os nazistas fizeram no gueto de Roma, durante a 2ª Guerra -, ele anunciou que está largando o cinema em caráter ‘irrevogável’. Lembrei-me de Krszystof Kieslowski e da entrevista que fiz com ele em Veneza, no Lido. Ele havia apresentado ‘A Liberdade É Azul’ e me disse – fui o primeiro a noticiar no Brasil – que estava parando com o cinema, após encerrar sua trilogia das cores. Isso foi quando? Em 1993? Kieslowski não durou muito e morreu em 1996. Sempre me pergunto se a aposentadoria teve a ver com sua morte repentina, aos 50 e poucos anos. Scola é bem mais velho, mas sua decisão, tomada ‘sem lamentações’, segundo ele, não vai pesar? Ele devia iniciar um novo filme com Gérard Depardieu, mas deu-se conta de que estava cansado e que aquilo não fazia mais sentido. Espero que o afastamento dos sets nao o corroa por dentro, como talvez tenha feito com Kieslowski – que estava revendo sua decisão e pensando em voltar, mas a morte foi mais rápida. A trajetória pessoal de Scola atravessa meio século de cinema italiano, primeiro como roteirista e, depois, como diretor. Ele colaborou em filmes de Dino Risi antes de começar a fazer os próprios. Estreou em 1964, mas o turning point de sua carreira foi ‘Ciúme à Italiana’, em 1970. Vieram todos aqueles grandes filmes – ‘Nós Que Nos Amávamos Tanto’, ‘Feios, Sujos e Malvados’, ‘Um Dia Muito Especial’, ‘O Baile’ etc. Acho muito bonita a citação que Jean Tulard faz, no ‘Dicionário de Cinema’, de uma entrevista antiga do Scola, na qual ele conta que tem a sensação de fazer sempre o mesmo filme, não só pelo estilo, mas pelos temas. Seus filmes, Scola acrescenta, refletem a formação do garoto meridional que foi, vindo a Roma depois de ter convivido com marginais e oprimidos. Sobre o seu famoso engajamento – militava no Partido Comunista Italiano -, ele diz que fazia parte da sua honestidade, como artista e como homem, cidadão. Sempre tive imenso carinho por Ettore Scola e por suas tragicomédias. Cada um é livre para escolher o ‘seu’ Scola, aquele que levaria para a ilha deserta. Eu amo três filmes. ”Casanova e a Revolução’, ‘O Baile’ e ‘A Viagem do Capitão Tornado’. Se tivesse de escolher um só, seria o último, porque não seria só o meu amor pelo autor, e pelo cinema italiano, mas por toda uma tradição de literatura de aventuras, que me faz ser leitor, até hoje, de Emilio Salgari. Confesso que não teria esta coragem de decidir – ‘Estou parando.” Prefiro que a vida pare por mim, ou pare comigo. Lembrei-me agora de Visconti, cujo delicado estado de saúde fora agravado por uma gripe. Ele pediu à irmã Uberta para ouvir uma sinfonia de Brahms. Ouviu não sei quantas vezes, como se estivesse se preparando. Aí, disse – ‘Adesso, basta’. Chega! Virou para o lado e morreu. Que mise-en-scène! Misturei demais as coisas. Scola poderá viver ainda muitos anos. Tomara. Eu sou mais como Manoel de Oliveira. Seu neto, Ricardo Trêpa, disse que o que mantém o velho vivo são os projetos de filmes que ainda quer fazer. Mas entendo o Scola – nunca mais seus filmes, digo novos, só os antigos, para se ver (e rever).