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Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2011 | 12h38

TIRADENTES – Não tenho postado ultimamente, e não por falta de interesse em debater os filmes da Mostra Aurora nem outros assuntos que têm estado em pauta. Por exemplo, estréia hoje aí em São Paulo o filme de Sofia Coppola, ‘Somewhere’, rebatizado como ‘Um Lugar Qualquer’. Gosto bastante da filha de Coppola como ‘autora’, mas tenho de confessar que ‘Somewhere’ me pareceu seu filme menos interessante (o mais raso?). Desde ‘As Virgens Suicidas’ e, depois, através de ‘Encontros e Desencontros’ e ‘Maria Antonieta’, Sofia tem filmado personagens ‘lost in translation’, gente à deriva na vida. Ninguém é mais à deriva do que Stephen Dorff, o astro pop de ‘Somewhere’. De repente, ele fica com a guarda da filha, da qual vivia distante. São dois estranhos. O filme adota o ponto de vista da garota, de certo por se construir sobre lembranças de Sofia, que viveu muito essa vida (ou cultura) do hotel, como representação da vida efêmera, quando acompanhava seu pai, Francis Ford. O problema do filme, até pelo olhar adotado, é que ele me parece superficial demais. Os bastidores do show bizz, seja cinema, teatro ou rock, originaram grandes filmes, filmes densos. Cheguei a pensar, mas quem sabe é intencional, uma crítica à própria superficialidade desse mundo? Não me convenci. Existe esse lado superficial no cinema de Sofia Coppola,m e isso desde ‘As Virgens Suicidas’. Ela sempre olha meio de fora. As virgens se matam e não existem respostas claras para o mal-estar que as consome. Só que a superficialidade, que fazia parte do processo em ‘Encontros e Desencontros’ e ‘Maria Antonieta’, aqui atinge um ponto limite (e perigoso). Sinaliza para uma limitação de Sofia. À luz dos filmes anteriores, esse me pareceu o mais fashion, o mais ‘nascido para ser cult’. É bonito, elegante, mas me deu assim uma senmsação de ‘E agora, José?’ Uma coisa não resisto a assinalar. Como atriz, Sofia Coppola foi massacrada pela crítica por seu papel em ‘O Poderoso Chefão 3’. Foi uma coisa tão exagerada, que sempre achei que os críticos tentaram atingir o pai concentrando o fogo na crítica. De minha parte, sempre aumentou muito a potência trágica do filme o fato de Coppola o fato de ele colocar a própria no papel da filha sacrificada de Michael Corleone (Al Pacino). Não sei se Sofia, escaldada – e tendo sobrevivido -, alguma vez pensou nisso, mas ela é ótima diretora de elenco e não há um só de seus filmes em que atores e atrizes não me pareçam estar bem. Stephen Dorff é o ‘bom’ da vez. Sofia mora em Paris com as duas filhas (Romy e Cosima) e o marido, músico da banda Phoenix. Ela é capa da revista de bordo da Air France neste mês de janeiro. Dá suas dicas de Paris etc. Mas o que achei interessante foi uma revelação da autora. Sofia diz que até hoje não conseguiu achar o personagem, mas o que ela mais quer fazer é oferecer um grande papel ao primo Nicolas Cage. Ele está em ‘Caça às Bruxas’, que também estréia hoje em São Paulo. O filme não deixa de ser a releitura ‘espetacular’, de ação, de ‘O Sétimo Selo’, de Ingmar Bergman. Não posso dizer que gostei do novo filme de Dominic Sena, mas gostei de ver ‘Caça às Bruxas’, com os defeitos que tem. Estou misturando as bolas, como sempre, mas o essencial de Sofia, do filme dela, foi dito.

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