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A decadência de De Sica

Luiz Carlos Merten

27 Novembro 2007 | 17h41

Poucos autores de cinema foram tão vilipendiados pela crítica quanto Vittorio De Sica. Depois de antecipar o advento do neo-realismo com ‘A Culpa dos Pais’, ele deu ao movimento, com ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’, dois de seus mais belos títulos. Mas já, ao longo dos anos 50, o cineasta que transformou figuras anônimas em rostos inesquecíveis – Lamberto Magiorani e Enzo Staioli em ‘Ladrões’, Carlo Battisti em ‘Umberto D’ -, colocou seu ofício a serviço do estrelismo de Sophia Loren, como diretor contratado do marido dela, o produtor Carlo Ponti. ‘Duas Mulheres’ pode ter dado o Oscar à atriz, mas aquela maneira de filmar o rosto dela, no começo, é a própria negação do método de De Sica em seus clássicos neo-realistas, quando ele buscava a emoção autêntica de atores não-profissionais. O opróbrio da crítica quer fazer crer que o verdadeiro autor de seus filmes era o roteirista Cesare Zavattini, mas este caiu junto com De Sica, assinando todos aqueles roteiros – ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, ‘Matrimônio à Italiana’ – transformados em filmes que celebrizavam, não apenas Sophia, mas também seu par romântico, Marcello Mastroianni. Nos anos 60 e 70, todo o conjunto da obra de De Sica passou a ser questionado. Como observa Jean Tulard em seu ‘Dicionário de Cinema’, pieguice, exploração abusiva das crianças e dos velhos, miserabilismo, tudo passou a desqualificar ‘Ladrões de Bicicletas’ e ‘Umberto D’. O segundo ainda se mantém, mas, se você é cinéfilo já deve ter ouvido críticos e diretores se referirem a ‘Ladrões de Bicicletas’ como um pavoroso melodrama. Por excessiva que seja a definição – e eu não concordo com ela –, a decadência se acentuou nos anos 60, com filmes como ‘O Fino da Vigarice’, ‘Sete Vezes Mulher’ e o horroroso ‘Um Lugar para os Amantes’, com Mastroianni e Faye Dunaway, que transformaram De Sica num faz-tudo, que aceitava filmar não importa o quê, porque vivia atolado em suas dívidas de jogo. Ele próprio metaforizava sua relação com o jogo – dizia que jogava na arte e na vida, errando feio em escolhas equivocadas. A decadência chegou ao auge com ‘Os Girassóis da Rússia’, em 1970. Foi uma época de parcerias internacionais, italiano-soviéticas. De Sica, velho comunista – foi a acusação que lhe fizeram –, fez de Sophia Loren essa italiana que desembarca em plena Praça Vermelha, em Moscou, em busca do marido que desapareceu no front russo, na 2ª Guerra. Ele se casou de novo e, agora, ela hesita em destruir essa nova vida que o ex construiu. E tudo é filmado ao som de um meloso tema de Henry Mancini, com as belas cores solares de Giuseppe Rotunno destacando campos de girassóis que evocam, muito distantemente, o mestre ucraiano Alexandr Dojvenko, autor do mais belo poema revolucionário do cinema – ‘Terra’ (você não estava pensando que era ‘O Encouraçado Potemkin’, não?). Tenho de admitir que a derrocada artística de De Sica foi sempre uma daquelas que me doeram. Achava-o simpático como ator, em filmes como os da série ‘Pão, Amor e…’, e também me comovi muito com a grandeza que ele revelou em seu maior papel, o do General Della Rovere em ‘De Crápula a Herói’, de Roberto Rossellini. Sempre lamentei que De Sica nunca tenha consegido concretizar o projeto que o obcecava, em seus últimos anos. Ele queria adaptar ‘Um Coração Simples’, de Flaubert. Aquela mulher que vai se apagando, até desaparecer, era ele. Se De Sica acertasse o tom, poderia fazer um filme nos antípodas de ‘Os Girassóis da Rússia’.

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