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Cultura » A criança, em Minnelli

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Luiz Carlos Merten

08 Setembro 2011 | 10h39

Tenho ido, sempre que possível, ao CCBB para acompanhar a retrospectiva de Vincente Minnelli. O falso autor de ‘Cahiers du Cinéma’ foi um grande artista, e um grande diretor. Ontem, assisti a um duplo, ‘Paixões sem Freios’, The Cobweb, que ele fez em 1954, no mesmo ano de ‘A Lenda dos Beijos Proibidos’, Brigadoon, e ‘Papai Precisa Casar’, de 1962 (o ano de ‘A Cidade dos Desiludidos’). O mais bacana tem sido as descobertas que esses filmes proporcionam. Minnelli não é um autor ao qual se possa voltar, sempre. Com raras exceções, seus filmes quase não passam na TV, não existem em DVD no Brasil. Já disse que fiquei chapado assistindo a ‘Agora Seremos Felizes’, Meet Me in St. Louis, que será reprisado hoje à tarde. Como em Douglas Sirk, o rei do melodrama, não me dava conta de como a família é fundamental no cinema de Minnelli. Ao lembrar-me dele, pensava sempre nos artistas – os pintores e escritores – que são seus personagens, sempre em choque com o mundo, mas a família é essencial. Os médicos e paqcientes de ‘Paixões sem Freios’ formam uma espécie de família – uma ‘teia de aranha’, Toile d’Araignée, segundo o título francês -, ligados por sentimentos ambíguos de amor e ódio. O filme trata de enfermos mentais, de distúrbios psiquiátricos, e o personagem mais maduro da história é o pequeno Tommy Rettig, filho do dr. Richard Widmark e de Gloria Grahame. O filme é sobre como a mudança de uma cortina pode subveter a ordem da clínica. O mundo vem abaixo, por um motivo aparentemente banal, e aquela cortina persegue o artista John Kerr, como ele diz, no final. Muitos críticos reclamam do que para eles é a falta de ironia de Minnelli, que, ao contrário de Sirk, levaria seus melodramas demasiado a sério. O humor é cruel, não poupa o ridículo de ninguém em ‘The Cobweb’, exceto aquele menino que joga xadrez e, quando abre a boca, é para dizer coisas definitivas a seu pai bem-intencionado e à mãe que só reclama, sentindo-se negligenciada pelo marido, mas ela desconta nos filhos, aos quais não dá a menor manifestação de afeto. O menino, Eddie, o garoto Ron Howard, também é o fiel da balança, que vai escolher a mulher para o pai viúvo, Glenn Ford, em ‘Papai Precisa Casar’. A sabedoria de Ron Howard – alguém, cinicamente, poderia dizer que ele a perdeu, quando adulto, ao virar cineasta, mas não serei eu a dizer isso. Sei que tenho amado a revisão do cinema de Minnelli, mesmo que, eventualmente, alguns filmes me pareçam menos bons que outros (e isso é normal). E o vermelho e o verde? Logo na abertura de ‘Paixões sem Freios’, John Kerr cita Dérain, que no seu leito de morte, pediu um pouco de vermelho e a cor representa a vida, a paixão para Minnelli. O verde seria, ou é, a paz, inclusive interior, o equilíbrio, tão difíceis de atingir. O vermelho e o verde percorrem toda a obra e não se aplicam só a ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’. Cá estou eu, pegando carona nos musicais – ‘I’m in heaven’. E MInnelli é o meu cicerone nesta viagem.