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Luiz Carlos Merten

19 Março 2010 | 09h48

Estava salvando o post anterior, sobre Ibsen (re)visto por Steve McQueen, ‘O Inimigo do Povo’. Dei ao post o nome do filme e, quando a imagem desaparecia da tela, no ato de salvar, me lembrei de Jorge Sanjinés, o diretor boliviano que criou o grupo Ukamau, do qual terminou se separando. A obra de Sanjinés é toda ela uma tentativa de fazer cinema político num país sem tradição cinematográfica, a Bolívia, e no qual o índio, embora segmento majoritário da população, foi durante muito tempo alijado do poder (estou falando da era anterior a Evo Morales). Sanjinés fez filmes em quéchua – ‘Yawar Malku’, ou Sangue de Condor, ‘El Coraje del Pueblo’, ‘El Enemigo Principal’ . Neste último, um narrador apresenta oralmente o problema. Um camponês vai se queixar ao poder de que seu touro foi roubado, mas ele não apenas não é ouvido/atendido como, de  vítima, passa a acusado, num processo absurdo para que Sanjinés possa falar sobre quem é, afinal, o inimigo principal dos campesinos e obreros. Por mais brutal que fosse a ditadura militar,  consegui ver todos esses filmes nos anos 1970, no Brasil, ou viajando pelo Uruguai, Argentina e Chile. Sei lá onde anda o Sanjinés, mas sem o seu cinema militante, sem o admirável Miguel Littín de ‘El Chacal de Nahueltoro’,  não creio que a latinidade tivesse se entranhado em mim. Não vou dizer que eram tempos melhores – eram muito duros -, mas com toda a dificuldade havia acesso, e vontade, de ver alguma coisa fora dos padrões narrativos e institucionais. Ainda não me debrucei sobre a programação do festival Zona Livre, que está começando no CineSesc. É uma celebração da produção independente – e o filme de Steve McQueen, ‘Hunger’, tem um conteúdo político forte. Só que eu duvido que ‘Hunger’ dê o tom da programação. É mais provável que os autores estejam mais preocupados com a linguagem, e com os gêneros. Isso não deixa de compor uma política, mas é outra.