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Cultura » A conquista da honra

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Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2006 | 17h02

Nova York estava fervendo no fim de semana, que abrigou a maratona mais importante do mundo, vencida pelo corredor brasiliense Marilson Gomes dos Santos. Haviam 38 mil corredores e, no sábado, boa parte deles pôde ser vista fazendo aquecimento no Central Park, na 5ª Avenida, na Broadway. Fora isso, começa a movimentação de Natal e, com o frio, patinar no gelo vira uma verdadeira mania. Meu compromisso era ver Casino Royale e entrevistar a equipe do filme, mas deu para circular por livrarias, passar por aquele templo do audiovisual que é a Virgin e ir a cinema. Ri um monte com a incorreção ‘ultrajante’ de Borat, do Sacha Baron Cohen, e vi também Flags of Our Fathers, do Clint Eastwood, e Jety Li’s Fearless, do Ronny Yu. Fearless tem algumas das cenas de lutas mais espetaculares já filmadas – e no mesmo cinema, o Loew’s, da 42st, vi o trailer de The Curse of the Golden Flowers, terceira parte da trilogia de artes marciais do Zhang Yimou, com Chow Yun-fat e Gong Li, que muita gente já jura que será o vencedor do próximo Oscar de filme estrangeiro. Não perdi a fé em Cinema, Aspirinas e Urubus, mas a foto de Steven Spielberg ajoelhado perante Zhang Yimou (Spielberg, não Quentin Tarantino) pode contar pontos para a Academia de Hollywood. Fearless é daqueles filmes que meus colegas críticos nem vêem, mas me emocionou porque, no desfecho, há um lutador japonês cuja grandeza evoca a de Tatsuya Nakadai em Rebelião, do Masaki Kobayashi, que é um dos meus filmes cults. Ronny Yu com certeza viu Rebelião, ou quero crer que tenha visto. Seria coincidência demais. Mas quero falar é de Flags, que estréia em janeiro no Brasil, com o título de A Conquista da Honra. O novo Clint Eastwood é impressionante. Ainda estou digerindo algumas coisas – o elenco desigual, com muita gente famosa em pequenos papéis; o visual que parece descuidado nas cenas de invasão em Iwo Jima –, mas saí do cinema siderado, em choque. Você conhece aquela foto dos soldados levantando a bandeira dos EUA em Iwo Jima. Logo na abertura, Robert Altman (preciso confirmar se é ele, mas me pareceu) diz que certas fotos ganham uma guerra. A do general disparando na cabeça do vietnamita levou os EUA a perderem a Guerra do Vietnã. A dos soldados de Iwo Jima ganhou a 2ª Guerra. Só que aquilo é a história oficial, fabricada pela máquina da propaganda. Clint quer falar do reverso daquela imagem. Conta a história dos três caras que foram apresentados à mídia como os heróis da foto, e não eram. A importância de um filme desses, no momento atual, é enorme. Os EUA vivem hoje o impacto de uma guerra como a do Iraque. O debate para a eleição legislativa de amanhã está passando (fundamentalmente) pelo Iraque. George W. Bush não é bobo. A condenação à morte de Saddam Hussein, dois dias antes, visava justamente a um impacto sobre a opinião pública. A questão do heroísmo, no filme de Clint, é complexa e o título brasileiro dá conta dessa complexidade. Pode não ser uma verdadeira história de heroísmo, mas é uma pungente história de conquista da honra. Há algo de fordiano na trágica grandeza do índio derrotado. Flags vai para o Oscar. Pelo que está pintando até agora, vai ser um escândalo, se não for.

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