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Cultura » A China está próxima

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Luiz Carlos Merten

09 Março 2007 | 13h35

Nada como um filme depois do outro para ajudar a contar a história de um país. Em Cannes, 2005, Wang Xiaoshuai ganhou o prêmio especial do júri por Sonhos com Shangai, que se baseia em experiências que ele viveu na juventude. Nos anos 60, o camarada Mao, grande timoneiro da China, acreditava que a Grande Marcha para o comunismo dependia da regionalização. Era preciso povoar e desenvolver as regiões mais pobres do país e o maoísmo estimulou as populações a abandonarem as grandes cidades, como Pequim e Shangai. O filme conta a história de um desses homems que fizeram o que Mao lhes apontava. Só que nos anos 80, ele tem uma filha de 19 anos, Mao já morreu e ele intui que a China vai mudar. Para participar do esforço de modernização desta nova China que vai reingressar no capitalismo, o retorno à cidade é necessário. O pai sonha com Shangai, mas sua filha tem namorado, amigos naquele lugarejo de fim de mundo. Cria-se a tensão familiar, que degenera em tragédia. Wang Xiaoshuai fez um filme de clima pesado e silêncios eloqüentes. O mundo que ele filma parece parado no tempo, estagnado, mas na verdade há, sob essa superfície de falsa tranqüilidade, um vulcão prestes a explodir. Gosto demais de Sonhos com Shangai, espero que vocês gostem, também. Em Berlim, no mês passado, o Urso de Ouro foi para outro filme da China – O Casamento de Tuya, de Wang Quan’ an. Um filme mongol/chinês, que o diretor fez em homenagem à sua mãe. Ela é da Mongólia e ele queria documentar um mundo em fase de desaparecimento. A história é mais ou menos o contrário da de Sonhos com Shangai. Passa-se na China atual e a protagonista é uma pastora de ovelhas, cujo marido está entrevado. Ela tem de cuidar dele, dos filhos, da casa – e das ovelhas. Todos lhe dizem que se divorcie e arranje um marido capacitado. Ela aceita o divórcio, mas condiciona o casamento a uma cláusula que pode até parecer absurda – só aceita um novo homem se ele lhe permitir levar o ex-marido inválido. E tudo isso ocorre no quadro de uma transformação. O governo agora necessita de mão de obra barata para tornar a China competitiva, como economia de mercado. As populações são exortadas a deixarem o campo e a migrar para cidades médias, onde se constróem fábricas. Tuya é um filme muito simples, quase singelo, mas essa singeleza é tão falsa quanto a aparente calma de Sonhos com Shangai. Wang Quan’ an trabalha a linguagem e capta a multiplicidade de cores, sons e costumes que estão morrendo com esta velha Mongólia na qual camelos são substituídos por carros e ovelhas por petróleo e bens manufaturados. O cinema espelha a realidade da China. Conta a história do país com olho crítico e ousadia estética. Os dois Wangs, o Xiaoshuai e o Quan’an, pertencem à chamada sexta geração, que sucede à quinta, de Zhang Yimou e Chen Kaige. Em Cannes, Xiaoshuai disse que não há ruptura entre essas gerações. Há uma continuidade – ambas querem fazer um cinema de testemunho. Passam as gerações e o cinema chinês continua de ponta nos grandes festivais.