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Cultura » A China está próxima

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Luiz Carlos Merten

01 Novembro 2007 | 19h51

Redigia o texto sobre Jian Zhang-ke (ou Zhang-ke Jia) para o ‘Cultura’ quando me lembrei de uma coisa que ficou entalada ontem. Falei que a China havia, em décadas, passado do comunismo para o capitalismo e recebi algumas pedradas, as já tradicionais reclamações de que erro, sou ignorante etc. Não quis polemizar, mas agora quero saber. Qual foi o erro – décadas ou dizer que a China virou capitalista com sua economia de mercado? Pode-se tomar como ponto de referência da nova China os protestos da Praça da Paz Celestial, que datam de 1989 e, portanto, já têm 18 anos. OK – isso equivale a 1,8 década, quase duas, mas ainda não são ‘décadas’, no plural. Só que o próprio Jia Zhang-ke recua no tempo e vê na Revolução Cultural do camarada Mao, o Grande Timoneiro, os fundamentos da nova China (e ele até lamenta que o cinema chinês não aborde tanto aquele período como deveria. Só para constar – seu próximo filme vai tratar do assunto). Não é preciso voltar aos anos 60, porque, afinal, aquela China era a de Godard (‘A Chinesa’) e Bellocchio (‘A China Está Próxima’), ou seja, comunista, sem sombra de dúvida. Concretamente, a era das reformas que levam ao capitalismo começa com Deng Xiaoping em 1978 (ou não?) e aí já são 2,9 décadas, quase três. Ao ritmo em que cresce a economia chinesa – não sou nenhum especialista -, ouço dizer que o país será em 2030 (ou 40) o maior PIB e, conseqüentemente, a maior economia mundial, deixando para trás os próprios EUA. Estamos assistindo a esse crescimento vertiginoso de camarote, pelas lentes de um cineasta que é crítico desse progresso todo, não porque seja retrógrado ou contra o progresso, em si – contrário á ‘modernidade’, como se diz por aqui -, mas porque sabe que ele se faz à custa de uma desumanização brutal. É o tema de ‘Still Life’, Em Busca da Vida, e também de ‘A Questão Humana’, do francês Nicolas Klotz, que, infelizmente, não ficou para a repescagem da Mostra, que começa amanhã. A explicação é que número de exibições do filme era contado e a cópia já está retornando a Paris. Ou seja – vamos ter de fazer campanha para que Jean-Tomas, da Imovision, ou André Sturm, da Pandora, comprem o filme do Klotz. Fiz uma entrevista com ele e sua mulher (e roteirista, Elisabeth Perceval) que adoraria publicar, mas agora fiquei sem ‘gancho’, como se diz em linguagem jornalística.

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