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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2007 | 11h31

Concordo com Saymon – não há cena de dança no cinema como a de ‘Verão Violento’, do Zurlini, quando Jean-Louis Trintignant e Eleonora Rossi Drago dançam de rosto colado, indiferentes à guerra que explode ao fundo, porque o turbilhão interno deles é muito maior. E vou pegar carona em mais uma coisa que disse o Saymon – havia escrito, impulsivamente, meio sem pensar, que ‘Desencanto’ e ‘A Dama das Camélias’, a versão de Cukor, são os filmes mais românticos que conheço. Saymon citou outro – ‘A Carta de Uma Desconhecida’, de Max Ophuls, com Joan Fontaine e Louis Jourdan. E não é que ele pode estar certo? Ainda não sei se substituiria algum dos outros dois (qual?) pela ‘Carta’, mas realmente agora não sei quem é mais apaixonada, ou apaixonante – Garbo, morrendo por seu Armand Duval (Robert Taylor) em ‘Camille’ ou Joan, apontando, com seu sacrifício, o caminho para a recuperação da dignidade do pianista mulherengo da ‘Carta’. Kubrick amava Ophuls, o cineasta da valsa, cujos travellings homenageou em ‘Glória Feita de Sangue’ e ‘2001’, dois filmes que bebem na fonte deste sensível e refinado judeu austríaco que foi um dos maiores diretores do cinema sem ter, a rigor, nada parecido com ele. Grande Ophuls. Lembro-me da frase, mas não do autor, segundo a qual o cineasta, filho de industriais nascido em Sarrebruck, operava, de dentro do romantismo aristocrático e burguês, a destruição do segundo. Amo Ophuls, mas tenho de fazer uma confissão. Sua fama é muito ligada a seu último filme, ‘Lola Montès’, que foi remontado pelos produtores e fracassou na bilheteria, criando o mito de um Ophuls maldito, que a crítica francesa (‘Cahiers’, acima de tudo) reverenciava como o autor sacrificado no altar do capital (chique a frase, não?). Mas eu prefiro o Ophuls de ‘Na Teia do Destino’ (The Reckless Moment), seu segundo filme consecutivo com James Mason, após ‘Caught’, cujo título em português nunca me lembro. Mason faz o cara que chantageia uma mãe cuja filha se envolveu num assassinato. O filme é um melodrama noir maravilhoso e, até onde me lembro, poucos diretores da época (fim dos anos 40) – e certamente nenhum em Hollywood – foram tão subversivos na abordagem da família norte-americana tradicional. Max Ophuls sempre foi, acima de tudo, um subversivo genial.