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Cultura » A carta de uma desconhecida

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Luiz Carlos Merten

05 Março 2010 | 10h07

Talvez eu goste de romancear um pouco – faz parte da minha natureza –, mas sempre adorei a história de que em 8 de maio de 1948, quando completava 42 anos, Rossellini recebeu ‘aquela’ carta. Era assinada por uma desconhecida (para ele), o que no meu imaginário faz uma curiosa ponte com o deslumbrante filme que Max Ophuls adaptou de Stefan Zweig e do qual gosto mais – fazer o quê? – do que ‘Lola Montès’, mesmo reconhecendo a importância desse último. ‘Vi seus filmes ‘Roma C idade Aberta’ e ‘Paisà’ e gostei muito. Se você precisar de uma atriz sueca que não fala muito bem inglês, que não esqueceu seu alemão, não é muito compreensível em francês e em italiano só sabe dizer ‘Ti amo’, estou pronta para fazermos um filme.’ A sueca em questão era Ingrid Bergman e eu fico pensando se ela sabia quais poderiam ser as consequências de seu gesto impulsivo. Ingrid era uma das maiores, senão a maior estrela hollywoodiana da época, tão cintilante quanto Bette Davis, Joan Crawford e outras poucas. Rossellini, lisonjeado, tomou um avião e foi a Hollywood discutir possibilidades de trabalho com ela. Descobriu que seria impossível trabalhar nos EUA – a tal rejeição mútua entre Hollywood e ele –, mas seria viável levar a Bergman para a Itália. Ela foi, abandonando marido e filha. O divórcio foi escandaloso, Pia, a filha, depôs a favor do pai no processo litigioso de divórcio, acusando a mãe de abandono – a cena da lição de piano em ‘Sonata de Outono’ não tratava só de uma personagem, era a própria Ingrid, o outro Bergman, Ingmar, sabia muito bem disso. Em Ingrid, Rossellini encontrou fundamentalmente um rosto, e um corpo. Ambos substituíram outra atriz em sua estética – Anna Magnani – e Rossellini, depois de inventar o neo-realismo com sua trilogia das cidades em ruínas (‘Roma’, ‘Paisà’ e ‘Alemanha, Ano Zero’), inventou o cinema moderno com seus cinco ‘Bergman filmes’. Por que estou escrevendo isso, sobre Rossellini? Porque a Versátil está lançando ‘Europa 51’. Com todo respeito pela série sobre os filósofos e pensadores, para a função pedagógica que o diretor atribuía à televisão, o Rossellini que me interessa praticamente acaba com ‘De Crápula a Herói’, em 1959. Mentira, chega até ‘A Tomada do Poder por Luis XIV’, em 1966, passando por seu filme que mais gostaria de rever. Afinal, ‘Vanina Vanini’, com Sandra Milo e Laurent Terzieff, de 1961, foi livremente adaptado de meu querido Stendhal e eu me lembro que Jefferson Barros, sempre ele, foi um solitário defensor do filme. Quando ninguém mais tinha coragem de defender um filme, só Jefferson, o tempo já me provou que ele estava certo. A propósito, Jefferson amava Rossellini e a parcweria com a Bergman. Escreveu um belo texto sobre ‘Viagem na Itália’, mas me lembro dele tecendo loas a ‘Europa 51’, também.