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Luiz Carlos Merten

10 Novembro 2007 | 17h23

Fui hoje ao almoço de aniversário da filha de minha amiga Leila Reis – Lua de Gramont, uma cantora maravilhosa que ainda busca seu caminho (e agora tem outra Lua no circuito). Procurava um presente para a Lua. Fui à Livraria Siciliano e terminei descobrindo que a Editora Alfaguara (é isso não?) está lançando o livro de Leonardo Sciacia, ‘A Cada Um o Seu’. Há 40 anos, Elio Petri adaptou este grande livro, mas seu filme recebeu outro título no Brasil – era ‘Condenado pela Máfia’, com Gian-Maria Volontè e Irene Papas, poderosa atriz grega (dos filmes de Michael Caccoyannis). A história do livro (e do filme) é maravilhosa. Um sujeito de reputação impecável recebe uma carta anônima dizendo que vai morrer. Para surpresa da comunidade na cidadezinha siciliana, o cara é mesmo assassinado e um professor começa a pesquisar se ele era mesmo o que parecia, ou não, a ponto de justificar o crime da Máfia. Gosto muito de Elio Petri, apesar de ele ter alguns filmes que me parecem equivocados (‘A Décima Vítima’, com Marcello Mastroianni e Usrula Andress, por exemplo). Amo o primeiro, ‘O Assassino’, já com Mastroianni, e ‘Os Dias Estão Contados’ (ou ‘São Numerados’?), com Salvo Randone e até escrevi que o personagem sofista que Petri criava no começo de sua carreira terminou influenciando, décadas mais tarde, o cinema de Michael Mann – para mim, pelo menos, é muito claro que ‘Colateral’ incorpora ‘Os Dias…’ e ‘Miami Vice’ duplica ‘O Assassino’. Petri virou um dos grandes nomes do cinema político italiano por volta de 1970 com seus dois filmes interpretados por Volontè – ‘Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita’, que ganhou o Oscar, e ‘A Classe Operária Vai ao Paraíso’, que venceu a Palma de Ouro. Gosto bastante dos dois, mas tenho para mim que ‘Condenado pela Máfia’ é o melhor Petri, o que me veio hoje bem claro quando peguei o livro do Sciacia na mão. É meio complicado de dizer ou explicar, mas acho que Petri filmava de um jeito. Para chegar ao estilo ‘exuberante’ que o consagrou – ao discutir temas como autoritarismo e/ou alienação no jogo de poder -, ele teve de passar por um filme estranho, e meio modernoso, ‘Um Lugar Tranqüilo no Campo’, com Franco Nero e Vanessa Redgrave. O ‘Lugar Tranquilo’ levou a ‘Condenado pela Máfia’ e foi aí que Petri gestou o seu cinema político, que haveria de se consolidar em seguida, em novos filmes interpretados por Gian-Martia Volonté, a cara do cinema político italiano nos 70. Seria interessante se, com o livro de Sciacia (‘A Cada Um o Seu’), voltasse também o filme de Petri.