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Cultura » A Bohème de Dornhelm

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Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2008 | 11h31

Fui ver ontem à noite ‘La Bohème’, de Robert Dornhelm, que o próprio Leon Cakoff considera um dos grandes filmes desta Mostra. Quando Leon me perguntou se havia visto, disse que sim, mas sem muita convicção, porque, afinal, havia mesmo era visto a versão de Luigi Comencini, com Barbara Hendriks como Mimi, que acho muito bonita. Nem sabia desta nova versão. Tudo bem que eu amava Comencini e desconfio do Dornelm, mas a ‘Bohème’ do primeiro me parece muito mais intimista e delicada, além de a Barbara encarnar muito bem a fragilidade de Mimi, no desenlace trágico. A de Dornehlm é muito mais opulenta como produção e a Mimi do diretor austríaco, Anna Netrebko, me pareceu muito carnuda para quem está morrendo daquele jeito. Pode ser um detalhe irrelevante, mas me parece que o problema da ópera no cinema, justamente por ser ela construída sobre convenções tão artificiais, é sempre a forma como os diretores enfrentam o realismo. O caso de ‘La Bohème’ é tanto mais emblemático porque a ópera já expressa o conflito na sua essência – temos de um lado toda a essência do melodrama na relação de Mimi e Rodolfo e de outro o retrato da realidade cotidiana, com seus personagens que passam fome e/ou ralam face aos duros percalços da vida. O filme de Comencini é do fim dos anos 80. Já deve ter bem uns 20 anos e ou eu me engano ou foi produzido por um entusiasta da ópera no cinema – Daniel Toscan Du Plantier, que morreu sem concluir seu sonhado projeto de fazer uma nova versão de ‘A Flauta Mágica’, voltada para o público infantil, com direção de Coline Serreau. Lembro-me de uma sensação curiosa. O filme de Comencini começava meio devagar, mas crescia à medida que a própria história se adensava. No final, quando Mimi morre, eu já estava aos prantos. O de Dornhelm me pareceu que exagera no artifício, com todas aquela neve que – vou enfiar os pés pela mão – me lembrou, ó horror, o Joel Schumacher de ‘O Fantasma da Ópera’. Mas o filme tem coisas bonitas, e as melhores delas, para mim, passam pela relação entre o pintor Marcelo e sua amante cocotte. Na saída encontrei uma amiga que me disse que também tinha restrições ao filme. Sublime, para ela, era o Puccini. Concordo.

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