Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » A Bíblia do cinema?

Cultura

Luiz Carlos Merten

25 Julho 2010 | 13h28

Falei aqui no outro dia sobre ‘O Poderoso Chefão’ e ontem ocorreu de um zapear, de novo, na TV paga, e pegar o começo do primeiro filme da saga de Francis Ford Coppola. Disse comigo – vou ver até a parte que havia pegado anteriormente. Que nada! Terminei revendo o ‘Chefão’ inteiro. Aquilo não é um  filme, é uma Bíblia de cinema. E tem referências tão secretas que, sei lá, cada visão propõe uma (re)descoberta. Ontem, por exemplo. Quando Michael Corleone, depois de cometer o duplo assassinato, precisa se asilar na Itália, ele tem dois guarda-costas e um deles é Franco Citti, o ator pasoliniano de ‘Desajuste Social’, e disso me lembrava. Mas não me lembrava que Saro Urzi faz o pai da bela Apollonia, com quem Michael se casa (e ela morre num atentado preparado contra ele). A cena é maravilhosa. Michael e seus guarda-costas chegam a uma taberna, e um dos caras pede informações sobre a deusa que eles acabaram de ver. Ela é filha do velho, que fica puto, mas Michael/Michele o chama e diz que suas intenções são sérias. A escolha do ator não deve ter sido mera coincidência. Saro Urzi era amigo e um dos atores favoritos de Pietro Germi, com quem trabalhou desde ‘Em Nome da Lei’, no fim dos anos 1940. Foi o pai de Steffania Sandrelli em ‘Seduzida e Abandonada’, pelo qual ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes, 1964. Justamente ‘Sedotta e Abbandonata’. A gritaria de Saro Urzi, no ‘Chefão’, me remeteu ao pânico deste pai virtuoso que teme ver sua filha – de novo! – seduzida e abandonada. Duvido muito se Coppola não pensou nisso ao escolher o ator. Todas aquelas cenas que se seguem ao atentado contra Dom Vito e mostram a ascensão de Michael Corleone são uma lição de concisão (e cinema narrativo). Santino (James Caan) é impulsivo, está sempre colocando tudo em risco e por isso será morto. Michael é de uma frieza extraordinária e a maneira como ele sai das sombras para ocupar o primeiro plano é de uma precisão quase cirúrgica. Adoro a cena do hospital, quando Michael capta rapidamente o que está ocorrendo – o Dom foi deixado sozinho para ser morto – e arma a reação. A chegada de Enzo, o padeiro, é providencial. Depois que eles despistam os sicários, Enzo tenta acender um cigarro, mas treme tanto que não consegue. Michael pega o isqueiro, acende o cigarro e olha para as próprias mãos, surpreso de estar tão calmo. O jovem Pacino já era extraordinário. E é curioso. Ele havia feito antes ‘Panic in Needle Park’, Os Viciados, de Jerry Schatzberg, no papel de um drogado. Aparecia numa histeria imenso. Como Coppola viu nele justamente o autocontrole? Quase todo o elenco de ‘O Poderoso Chefão’ teve de ser bancado pelo diretor. O estúdio queria outros nomes, o próprio Brando teve de fazer teste. Repito, aquilo não é um filme. É uma (a?) Bíblia do cinema.